Cinema

[Crítica] O Menino e o Mundo

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O Menino e o Mundo - poster

Após indicação ao Oscar de Melhor Animação, a produção brasileira O Menino e o Mundo, que já havia sido lançada em home video no país, obteve um novo alcance merecido. A indicação foi suficiente para expandir a popularidade do filme dirigido por Alê Abreu e conquistar novos espectadores. Uma ação necessária diante da ainda precária atenção dada às animações brasileiras em circuito, tanto por parte de uma distribuição reduzida, quanto da recepção do público, sempre atento às animações estrangeiras.

Desenvolvido sem falas, a obra se vale do conceito clássico do cinema como símbolo visual para transmitir sua mensagem. Não bastando o estilo sem falas, que hoje causa ruptura por retomar um antigo padrão não mais vigente, os traços da animação se destacam ao se basearem em composições simples, como desenhos primitivos feitos por uma criança. São estes personagens delimitados de maneira simples que narram uma história simbólica.

A narrativa se inicia devido a um conflito primordial na sociedade moderna: a ausência de trabalho e a migração da população para polos urbanos. À procura de um emprego diante da escassez do campo, o pai se desloca para a cidade grande, deixando memórias e tristezas no filho, a personagem principal da trama. Pela saudade, o garoto percorre o mesmo trajeto do pai para procurá-lo na cidade grande.

O tom simbólico da trajetória se mantém devido à representação imagética apoiada nestes traços infantis. Trata-se de um mundo adulto visto sob a ótica infantil e, assim, modificando as construções reais para uma cidade simbólica, compreensível para o garoto. A agressividade da cidade é representada por objetos mecânicos antropomorfizados em animais, símbolos que dialogam com uma visão de mundo ainda pura. Ao transitar de seu espaço natural para a cidade, o local idílico da infância representado pela música e pelas boas memórias é violentado pela selva de concreto.

Ao acompanhar temporariamente personagens desta sociedade, identificando sentimentos e situações as quais nunca havia vivido, a história tece uma crítica severa ao conceito de uma sociedade e como ela, por motivos diversos, produz cidadãos infelizes vivendo um cotidiano vazio. Há uma clara contraposição da evolução da humanidade simbolizada pelos avanços mecânicos e tecnológicos em contraste com os seres inseridos nessa própria sociedade vivendo como engrenagens invisíveis.

A desesperança presente na história é potencializada por estes símbolos na transição do garoto, que observa sua inocência ser transformada por uma visão crua da cidade grande, reconhecendo, em escala geral, a falência da civilização e da existência como um todo. De maneira melancólica, a visão do garoto é desoladora e causa comoção pela triste constatação de que, além das cores e dos traços infantis, a realidade é composta desta maneira, sem nenhum filtro estético.

A ousadia em promover uma obra sem falas diante de um padrão acostumado com narrativas repletas de ação promove uma ruptura, conferindo à trama maior observação. Sob o viés infantil, O Menino e o Mundo, vencedor do Annie Awards deste ano, é uma delicada obra sobre a evolução humana, equilibrada entre certa poética e amargura.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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