Crítica | O Menino Que Descobriu o Vento

Os seres vivos precisamos “criar” as condições para nos mantermos vivos. Os vegetais, ao longo do tempo, vão inclinando seus troncos para buscar melhor condição de luz e se enraízam na direção mais úmida. Animais necessitam a cada instante se proteger de predadores e buscar sua fonte de alimentação. Essas são obviedades, sem dúvida, mas um introdução necessária para o que segue. Qual o diferencial de maior destaque do ser humano em relação aos demais seres vivos? A capacidade de raciocinar, juntar informações e conhecimentos registrados por outros homens, refletir, pensar soluções para seus desafios e implementá-las.

O emprego da engenharia salvou o ser humano ao longo da evolução. Assim como salvou William Kamkwamba e sua família da fome e da morte. Nascido em 1987 no Malawi, William teve uma infância repleta de restrições, alimentos, água, educação aí incluídos. Depois de passar por muitas dificuldades e mesmo sem acesso à educação formal, ele foi ousado o suficiente para construir algo que solucionaria grande parte dos problemas de sua família. Com base em livros, sem tutoria ou apoio de qualquer outra pessoa, construiu uma turbina eólica para geração de energia para sua casa. Contando apenas 14 anos, em meio a uma sociedade praticamente destruída pela pobreza e pela severa seca daqueles anos e com seu pai totalmente contrário à sua ideia louca, William construiu a turbina se utilizando de troncos de árvores, partes de uma bicicleta e componentes encontrados em um ferro velho.

“O menino que descobriu o vento”, de Chiwetel Ejiofor, conta essa história, intrigante, tocante e completamente extraordinária. Kamkwamba (Maxwell Simba) é um menino curioso, fortemente interessado por estudar (muito embora não tenha sido forçado a interromper seus estudos ainda na fase primária) e muito perseverante. A excelente atuação de Maxwell Simba apenas engrandece essa história, reconhecida no seu próprio país em 2006 quando o principal jornal malawi escreveu sobre a história.

Já bastante conhecido como ator, Ejiofor (12 Anos de Escravidão) debuta de maneira bela como escritor (adaptação do livro para as telonas) e diretor de longa. Caso continue investindo nessas funções, é muito provável que alcance o mesmo destaque que já alcançou como ator. Além de conseguir fazer os espectadores chorarem, em função da sua delicada condução da trama e dos atores, ainda nos entrega uma convincente atuação como Trywell Kamkwamba, pai do menino William.

Mais um destaque do filme é a interpretação que a veterana atriz senegalesa Aïssa Maïga faz da mãe de William, Agnes Kamkwamba. Não menos que intensa e real, a Agnes de Maïga nos faz viver de perto a mãe africana vivendo em condições de forte restrição e toda a dor por que passa ao se ver impotente para cuidar dos seus filhos como toda mãe amorosa e responsável deseja. Quem quer que veja o filme com o mínimo de atenção à sua interpretação, certamente despertará o interesse em conhecer um pouco mais de sua filmografia.

Totalmente filmado no Malawi, o filme conta também com mais este ponto a seu favor: nos transmite ainda mais sinceridade e verossimilhança ao nos mostrar lugares muito próximos da realidade da infância de William. Verdadeiro entusiasta de bons filmes derivados de histórias reais, concluo com o seguinte lugar-comum: cada minuto sentado à frente da tela dedicado ao longa é extremamente válido.

Texto de autoria de Marcos Pena Júnior (marcospenajr.com).

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