Crítica | O Motorista de Táxi

O Motorista de Táxi não é só um filme pra inglês ver. Não há nada de errado se fosse, mas eu explico a expressão com todo o prazer: segundo a maioria dos historiadores, quando a Inglaterra pressionava o Brasil para interromper o lucrativo tráfico de escravos no século 19, o governo deu esse jeitinho brasileiro clássico de esconder as práticas ainda escravagistas que rolava por aqui, e que principalmente em 2018 ainda consente nos inúmeros direitos retirados de trabalhadores, e já consentia também há mais de 180 anos. Ou seja, escondeu o feio pro povo da coroa só ver o belo. E para alguns filmes, exceto esse em questão, é a mesma coisa. Para isso se dá o alcunha de feel-good movie ou blockbuster PG-13. Fiéis a sua proposta básica de entretenimento, do primeiro ao último segundo de projeção, a promessa precisa ser firmada, refirmada, e assim sendo, cumprida. E tirando os esquemas centenários do nosso (des)governo, não há nada de errado com isso, afinal desde 1965 que a Globo manipula a realidade do jeitinho que esses filmes fazem numa escala perceptivelmente maior.

Isso poderia entrar numa longa discussão sobre o papel da arte (para não falar da mídia em geral) a fim de remodelar ao bel prazer dos seus agentes a nossa percepção de mundo. Mas a intenção certamente não é essa, aqui. Ficamos com a seguinte constatação: o filme do diretor Jang Hoon é uma flor que vence entre as raízes dos cedros, em meio ao asfalto duro ou da neve mais fria, na pior das temperaturas. É um manifesto ao otimismo que precisa ser reinante, mesmo que careça de uma bengala e um pouco de calor humano para resistir a tempos sociais tão difíceis como foram os protestos estudantis nas ruas da cidade de Gwangju, donde surgiu um verdadeiro massacre em 1980 contra todos que se cansaram da ditadura que viviam no país. Nisso, o filme explora o potencial e os efeitos de um raio de sol que corta o céu nublado, mesmo que este não tenha total conhecimento de parte do que representa para o todo.

É o caso do taxista Kim. Sua luta é a de um trabalhador comum, pelo sustento de sua única filha, e alienado como o adulto que é, apenas condicionado nas suas opiniões, acha que o motivo pelo qual os mortos de Gwangju bravamente lutaram é injustificado, e prefere tudo como está – como deixa claro num tenso diálogo dentro do seu ganha-pão motorizado com um estudante visto como comunista tanto por Kim, quanto pelo autoritarismo que a Coréia do Norte ainda enfrenta hoje, em 2018. Seduzido pelo dinheiro, Kim conduz um jornalista investigativo alemão para o olho do furacão, sendo por isso mesmo levado (e levando) a ver e a se envolver na luta armada da época que antes subestimava, e no fundo desprezava. E é justamente a partir disso, da sua exata metade em diante quando combina ficção com fatos históricos que O Motorista de Táxi ganha contornos hábeis de um filme que vai além do lugar-comum por se permitir ter e portar algo a mais que outro feel-good movie qualquer, algo que apenas por ventura colaboraria com uma visão de mundo colorida e irreal. Absolutamente, não é o que temos aqui.

Excessivo em sua duração, mas bem escalonado em seus propósitos de 1) expor com realismo e uma apuração técnica discreta os trágicos fatos sul-coreanos dos anos oitenta, e 2) manter sem digressões ou contradições a leveza do início da estória, mas expandindo os sentidos de tudo, eis um título que dificilmente consegue ofender ou aborrecer de alguma forma os seus espectadores, mas satisfazer quem procura por uma boa pedida do extraordinário Cinema da Coréia do Sul. Uma filmografia nacional digna de aplausos e que dificilmente decepciona, em qualquer gênero que se apresenta para o mundo. Além disso, é sempre um prazer assistir ao fantástico ator Kang-ho Song num papel que o deixe rir, sorrir e desenvolver na tela o seu lado mais jocoso e sensível, de modo que quase nos esquecemos daqueles outros tão paradoxais a isso que tanto nos habituamos ao longo dos anos em vê-lo encarnando, e com perfeição ímpar.

Eis uma gratificante surpresa aos amantes das boas narrativas. O próprio roteiro de O Motorista de Táxi é portanto uma analogia ao acaso, aos rumos inesperados de uma guerra ou de uma emocionante perseguição cinematográfica de carros, e talvez até a elementos do destino para seguir entrando em contato gradual com o aspecto mais e mais político da estória, pois a realidade sempre consegue adentrar. Choca-se, ou melhor, integra-se deliciosamente bem com outros tons, diferentes dos do seu início pacífico e timbrado somente por tons amigáveis e ensolarados. Nisso, é curioso perceber como o Cinema consegue, agindo como irmão da realidade que é, transformar um dia comum em montanha-russa que muda os eventos do agora para toda a posteridade, a seguir. E Kim achava que sua vida nunca cairia longe da mediocridade de seu táxi amarelo, sempre acostumado com aquela realidade política confortável e sob controle, vivendo em paralelo com uma guerra separada de sua casa por aquelas mesmas ruas de sempre, e claro, aquela mesma rotina que um dia teve a certeza em julgá-la interminável.

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