Crítica | O Ódio Que Você Semeia

Eles estavam começando a se apaixonar. Estrela, ou Starr, já olhava pra aquele garoto com olhos cintilantes, e recebia o mesmo olhar em troca do rapaz que cresceu junto, combinando as mesmas gírias, costumes; compartilhando de uma cultura vista pelo sistema de ‘cultura paralela’. Hoje no mainstream pop devido a vários cantores, autores e filmes como Moonlight: Sob a Luz do Luar, e Pantera Negra, a cultura afrodescendente passa aos poucos a ser respeitada, admirada e apropriada mais por ser lucrativa, antes de tudo, e menos por simplesmente merecer o respeito dos senhores brancos. A prova disso é que, na mais banal das noites, na volta de uma festa, Khalil vira mais uma estatística ao ser baleado, ao lado da inocente Estrela, e, para tornar-se inspiração de resistência, e luta, seu sangue faz manchar o asfalto noturno aos pés da viatura que trouxe a morte.

O Ódio Que Você Semeia se passa nos Estados Unidos no tempo do agora, mas a realidade trata de produzir remakes ao redor do mundo, e principalmente em países profundamente racistas como o Brasil, cujos índices anuais de violência divulgados não mentem sobre a direção favorita de uma bala, no asfalto ou na favela. A partir dos vários desdobramentos populares que seguem da morte de Khalil, mais um negro liquidado por ser negro em solo americano, as situações amparam, tal um cenário de fundo, o que realmente importa aqui. Como voltar ao normal, a escola, aos rolês descompromissados com os amigos, após presenciar o ódio enorme que existe do sistema contra você, sua família, e que, por muito pouco, não custou a sua própria existência?

Talvez, a melhor cena de O Ódio Que Você Semeia, a conversão cinematográfica em 2018 do livro de Angie Thomas, seja uma cena de um minuto que plenamente resume a relevância da obra: Estrela volta para a escola de elite onde estuda, rodeada de amigos (todos brancos), e que não entendem a gravidade do que aconteceu. Ela tenta explicar, mas ninguém lá viveu o racismo na pele. Se sensibilizam, claro, mas não entendem a dor. Vai além da compreensão dos seus olhos claros. Quando focado nas relações, principalmente as familiares da garota, após o trágico incidente na qual é envolvida, o filme brilha e expõe a boa adaptação ao Cinema que a história ganhou, bem escrita e mais sugestiva, do que falada – afinal, nenhum romance merece ter suas páginas simplesmente coladas numa tela.

Se antes era necessário parágrafos e mais parágrafos para descrever as emoções das personagens, apenas um close aqui já dá conta do recado, seja no olhar do julgamento que o pai dá ao novo namorado branco da filha, seja numa lágrima que escapa quando menos se espera. Isso porque o nível da atuação coletiva não desaponta, e muitas vezes diverte, liderada pela expressiva Amandla Stenberg, uma ótima atriz em ascensão. Ainda que sempre dividido entre a tensão do drama que envolve crimes de cunho racial, e o sentimentalismo que sobra de uma situação dessas, há um certo equilíbrio de prioridades aqui, e a direção de George Tillman Jr. mantém o tom de revolta e inconformismo até que Estrela, uma ótima personagem, finalmente entenda que as lutas nunca abandonarão a sua vida.

Vemos aqui a construção de uma guerreira, e o custo disso a médio e longo prazo na personalidade de uma jovem cidadã, rumo a vida adulta. Por isso, é muito imprudente sequer cogitar que O Ódio que Você Semeia é apenas racismo para adolescentes, sem a força de abordar este crime contra a humanidade que outros filmes como Infiltrado na Klan apresentam – e com a força de um jumbo. A obra literária na qual o filme é oriundo não simplifica, ou suaviza seus temas inevitavelmente polêmicos e fortes, mas em ambas as mídias nas quais a história de Estrela/Starr é narrada, é então preservada a confusão emocional e psicológica que a protagonista sofre, após ver o assassinato do seu melhor amigo naquela inesquecível noite, sendo esse redemoinho de conflitos, causas e consequências, que formam a estrutura desse belo, contemporâneo e doce conto juvenil de pura resistência, e superação.

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