[Crítica] O Outro Lado da Esperança

Aki Kaurismäki traz à tona um tema atual: a imigração síria pelo mundo. Após conduzir alguns dramas, entre eles adaptações de Fiódor Dostoiévski, Kaurismäki apresenta O Outro Lado da Esperança, que narra a história do refugiado sírio Khaled (Sherwan Haji), um sujeito que chega a Finlândia de maneira clandestina e bastante sofrida, mas que mantém absoluto silêncio enquanto tenta se encaixar em seu novo lugar no mundo.

Khaled aparece pela primeira vez debaixo da sujeira de carvão, a cor preta prevalecendo em seu rosto, fazendo-o esconder sua real identidade e até um pouco de sua humanidade. O silêncio já citado se refere não apenas do ponto de vista da linguagem, mas também em sua dificuldade de se encaixar nesse novo mundo e na sua condição de sobrevivente. É difícil ler nesses primeiros momentos qual é o conjunto de sensações que habitam no personagem.

O passado de Khaled é exposto em seu depoimento às autoridades do país que o recebeu. Seu passado como homem da construção civil em Aleppo e o motivo que o fez sair de sua terra são demonstrações muito fortes de como a guerra é implacável com o homem comum, fazendo-o perder até o que ele sequer sabia que tinha, além de reduzi-lo a uma função que claramente não era a sua.

A sobrevida do protagonista longe de sua pátria não é fácil. Permeada por momentos agridoces, que evidenciam uma fina camada de ironia a respeito de toda a cultura ocidental e o histórico preconceituoso também é demonstrado aqui, mostrando os percalços pelos quais o herói falido precisa sofrer. Os temas sensíveis são tratados com sutileza, e a frieza dos personagens condiz com o tom crítico que roteiro retrata a forma desprezível com que uma parcela dos europeus recebem o povo sírio. O Outro Lado da Esperança possui uma mensagem final otimista, ainda que ao longo de sua projeção tenha um tom bastante melancólico. No fim das contas, devemos nos apegar nesse fio de esperança, embora diminuto.

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