Crítica | O Passado

“Eu sou uma pessoa, sabia?”

É sempre inebriantes e deparar com um diálogo num café de rua entre um homem, e uma mulher, sendo tratado como algo vulcânico e imprevisível como assim deve ser, sobretudo num filme latino-americano em que as relações humanas são tão importantes quanto a luz incidindo sobre esses personagens, todos(as) sob constante choque (i)material. Mas o que acontece antes e depois desse diálogo é o que importa: Eles se casaram cedo demais. Os jovens Rímini e Sofia estavam fadados ao fracasso, mesmo depois de doze anos juntos, criando e alimentando suas cicatrizes entre os tapas e beijos, o silêncio e a verborragia de sempre.Se separam, vida que segue, e aqui começa o filme. No lugar que restou ao passado no decorrer de uma nova casa, cheia de novas possibilidades e tinta sobre tinta chamada futuro.

Ao Sherlock Holmes de um pretérito inesquecível, restava mesmo explorar os meandros do destino que nos fazem desviar de um grande amor que, afinal, nunca ia ser eterno.Estamos falando daquela que nunca esquecemos, vulgo alma gêmea. A pessoa que sempre volta porque tudo (ou quase tudo) é um gatilho que nos remete a ela. Não que Hector Babenco nunca tenha explorado isso, em Ironweed principalmente, seu primeiro filme inteiramente feito em Hollywood, cujo tema do amor perdido duelava com outros tão importantes quanto, na história do casal de Meryl Streep e Jack Nicholson. Em O Passado, porém, o tema não encontra paralelos dentro da trama, e reina sozinho numa história de amores loucos, como o próprio cineasta definiu, inseguro,o seu próprio filme.

Palco de um ator só; monólogo exclusivo. Tudo gira em torno de um sentimento vivo, materializado no sexo, nas discussões, em outras mulheres que como numa música de Caetano, não fazem Ríminientre viagens e outras bocas esquecer Sofia (que sempre reaparece nos momentos de conflito), nem no mais íntimo e prazeroso dos momentos de fuga. Babenco sabia muito bem como mostrar um personagem se deteriorando, de dentro pra fora, perdido em outros espaços, outros embaraços, com Gael García Bernal dando um show de atuação – na época com apenas 29 anos de idade. Notável como suas melhores cenas são as que contém menos diálogo, apostando tudo na performance de um ator nada menos que incrível. No lançamento do filme, há uma década, Babenco afirmou para uma revista brasileira que não tinha um jovem ator brasileiro à altura de Gael, e que tampouco sabia dirigir melodramas. Felizmente, verdades absolutas parecem não existir, muito menos na era da pós-verdade.

Falsa modéstia do hermano mais brasileiro que já existiu, ou não, fato é que após Carandiru e uma carreira inteira de filmes aclamados, e outros nem tanto, Babenco já mostrava sinais claros de cansaço criativo, e uma melancolia incômoda que por vezes não acrescenta em nada, pelo contrário: age aqui subtraindo grandezas dramáticas, fazendo muitas vezes o filme simplesmente não chegar a lugar algum. Babenco filmou o livro do argentino Alan Pauls como se tivesse colado as páginas nas lentes de sua câmera, sem pressa, mas sem muito tesão, também. Faltou Cinema e sobraram vontades. Mesmo assim, o domínio cênico do diretor continuava impressionante nesse seu penúltimo ímpeto, e há um fator principal aqui a provar isso, em pequenas grandes cenas de um filme repletos de velhas novidades pipocando, aqui e ali, por quase duas horas: sexo. Coisa rara não só pra muita gente, mas pro Cinema, em si.

Sabe-se que são poucos os filmes que já o tiveram de forma completamente verdadeira, orgânica, profunda e honesta com o ato, gotejando-o tão sincero na narrativa que se tornou memorável na vibração dos corpos, em cena. É raro o sexo explodir na tela, mais raro que aqueles cem reais que nunca encontramos perdido na calçada. Contudo, a cena final de O Passado emblema algo próximo a “aquele” nível de descortinamento sexual que poucos cineastas podem encher a boca e falar que alcançaram, um dia, nessa mídia chamada Cinema. Captar uma espécie de tesão inegável que escorre da pele das pessoas não é pra qualquer um, Babenco sabia disso, os melhores sabem, e filmava o tesão sussurrado entre quatro paredes de um jeito indescritível, e tão vívido, que fazia ser real – ao invés de parecer ser real. Talvez uma baita cena dessas, filtrada pela visão de um mestre na sua penúltima obra, seja então uma das recompensas principais desse belo e regular filme afinal de contas, por mais superficial que uma constatação dessas possa ser aos interessados.

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