Crítica | O Pequeno Mal

O filme de Lucas Camargo e Nicolas Thomé Zelune começa com uma narração em off, enquanto a imagem vai lentamente se abrindo, com um foco redondo mostrando uma gravura. O Pequeno Mal trata de relações e da dificuldade do homem se abrir com o outro, e se enxergar como parte de um coletivo. Essas sensações são passadas ao espectador principalmente pela vivência de João (João Paulo Bienemann), um garoto bastante distante até de seu parceiro, e de Janaína (Janaina Afhonso), uma menina epiléptica que cuidavam um do outro, e decidem morar juntos, a fim de sobreviver na capital paulista.

No noticiário televisivo, se fala de um incidente que ocorreu na estação de metrô de Pinheiros, quando ela ainda estava sendo construída, e tal situação de calamidade de certa forma conversa com o ideário pessimista e niilista de Janaína e João. O filme se dedica a uma melancolia típica das metrópoles urbanas e se vale desse sentimento bastante comum para tentar arrebatar seu público.

O filme tem uma linguagem que foge um pouco das fórmulas narrativas mais catedráticas, deixa muitos conceitos e respostas em aberto, e isso pode incomodar um pouco o público. Sua duração é curta de pouco mais de 70 minutos e não há gorduras no filme, todos os dramas apresentados são desenvolvidos na medida. A desolação de alma dos personagens é muito bem exemplificada, seja pelos problemas de saúde de um ou pela dificuldade do outro em se relacionar carnal e emocionalmente com quem quer que seja.

Os elementos fantásticos dos quais o filme se mune são mostrados normalmente em momentos em que não há como distinguir se são reais ou não, e a dualidade faz o filme crescer, em especial porque o trabalho da direção de arte remete a um período meio barroco, fazendo lembrar as primeiras produções dirigidas por Roger Corman (em especial as que adaptam Edgar Allan Poe) e algumas da Hammer Films (as que tinham Christopher Lee e Peter Cushing, principalmente), mas O Pequeno Mal é bem mais que apenas um filme de referências, e apesar de não ser perfeito, demonstra um belo potencial da dupla de diretores.

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