[Crítica] O Rastro

O cinema de horror brasileiro brasileiro possui uma cena pulsante, apesar dos poucos incentivos por parte de crítica e público. Nomes como Marco Dutra (Quando Eu Era Vivo) costumam passar pelo gênero, assim como Rodrigo Aragão (Mangue Negro) e o lendário José Mojica Marins também tocar na temática, quase que de maneira exclusiva em sua filmografia. O Rastro, de João Caetano Feyer tenta discorrer também sobre isso, usando um método de contar história tipicamente estadunidense, fato que não seria um problema, caso não fossem as influências e referencias empregadas aqui.

A trama é bem simples e moderna, centra-se na vivência de João (Rafael Cardoso) um jovem médico que trabalha para os poderosos de sua localidade, como fiscal de hospitais. É incumbido a função de racionar as condições de hospitais do Rio de Janeiro e ele se vê em um dilema, ao ter que fechar o pronto socorro onde antes trabalhou, comandado  por Heitor (Jonas Bloch), seu antigo mentor. Após o fechamento do local, estranhos acontecimentos ocorrem, incluindo aí mortes e desaparecimentos de crianças. Essa situação faz o protagonista mergulhar em uma paranoia terrível, fato que o faz ficar ausente até de casa, preocupando assim sua esposa grávida, Leila (Leandra Leal), fato que ainda mais situações complicadas para a gestante de primeira viagem.

A crítica lugar comum a essa métrica é de que o cinema brasileiro tem sua própria identidade e que não precisa copiar formulas de outros. Tal argumento é falacioso e não se aplica ao que Feyer propões em seu longa, nem se o analista fosse ranzinza e usasse de tal sofisma. Há uma mistura de uma abordagem semelhante a televisiva, que faz a premissa se aproximar inclusive de Sob Pressão, filme recente de Andrucha Waddington, além de referenciar obras como Ouija e Anabelle, emulando os piores de seus defeitos em relação a sustos, em sua maioria, gratuitos absolutamente.

A edição de som deixa a sensação de desconforto para o espectador ainda maior, e a intenção parece ser essa. O problema é que por não haver grande finalidade nos jumpscares, toda essa atmosfera criada soa como preciosismo. A tentativa de estabelecer uma crítica social na clara falta de naturalidade do filme. Se não há de se acreditar no corriqueiro, também não há como levar o fantástico a sério. Esse aspecto também prejudica as atuações, sobretudo em relação a Claudia Abreu, Felipe Camargo e Domingos Montagner, que ora estão no piloto automático ora estão em situações cômicas demais para um filme de horror.

Além disso, o comentário político tentar ser isento, e em tempos de crise política no país isso soa ainda pior, a ressalva é que esta produção é executada já há algum tempo, até antes dos lados polarizados se acirrarem tanto em suas discussões maniqueístas a respeito dos rumos de governo do país.

Em tempos onde filmes genéricos de terror estrangeiros lotam as salas de multiplex do Brasil, vem a luz um filme brasileiro que se aproxima muito do que é feito nessas franquias malfadadas, com diferencial de seu realizador, que ao menos parece saber onde coloca sua câmera. É uma pena que O Rastro seja tão decepcionante em alguns aspectos, principalmente por que se vê uma qualidade inegável no olhar do cineasta, em especial nas cenas onde são mostradas algumas mortes. Há de se ter uma atenção maior nas obras futuras de Feyer, e a expectativa é que roteiros mais elaborados sejam relegados a ele.

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