Crítica | O Rei Leão (1994)

Nos anos noventa a Disney investiu bastante em suas animações, muitas delas fizeram  enorme no Brasil, mas nenhuma delas é tão lembrada e celebrada no Brasil como foi O Rei Leão. Dirigido por  Roger Allers (que havia roteirizado Aladdin) e  Rob Minkoff (diretor dos futuros O Pequeno Stuart Little e O Reino Proibido), o filme começa emocionante, com musica Circle of Life (Ciclo sem Fim em português), que mostra o nascimento do pequeno Simba, o herdeiro do trono de Mufasa, um leãozinho curioso e divertido, que logo cresce e passa a sonhar com os dias de seu reinado.

A primeira cena de Simba e Scar foi a primeira animada também, e nas tomadas iniciais Simba está sempre na luz, enquanto seu tio está na luz, e por mais pueril que isso pareça, os diretores destacam que o objetivo era estabelecer visualmente os lados que seriam postos ao longo do filme. O protagonista é carente, como toda criança, e ingênuo, não percebendo os ardis e o desprezo de seu tio, Scar, tanto que ele embarca facilmente no convite para ir ao Cemitério de Elefantes, fora dos domínios do seu pai.

Antes mesmo da conversa entre tio e sobrinho, se percebe a rivalidade dos irmãos da geração anterior, em referencias obvias aos mitos antigos, como de Caim e Abel na Bíblia e no mito dos  fundadores de Roma, Romulo e Remo. Aqui no caso a atenção é pelo trono do reino, que em inglês é chamado de Prides Land (terra do orgulho) e no Brasil era Pedra do Rei.

Além da situação dos irmãos reais, há também uma outra questão polêmica que é a segregação das hienas, que moram perto do cemitério dos elefantes, longe dos domínios de Mufasa. O motivo desse exílio é completamente discutível, e parece ser por uma questão de aparência ou algo que o valha. Isso demonstra que talvez todo o discurso de Mufasa seja hipócrita, de um falso assistencialismo, já que eles comem boa parte dos súditos que celebraram o nascimento de seu filho, além do que ele faz separação de alguns animais. Scar tem uma semelhança forte com o III Reich, inclusive na sua primeira música solo, Be Prepared (Se Preparem), com uma marcha que lembra a da SS nazista, mas é fato que o seu benevolente irmão não fugia muito do pensamento monárquico totalitário, apesar de obviamente levar em conta que esse é um filme para crianças, ainda assim, o reinado dele tinha a cadeia alimentar como determinante de poder.

 Muitos fãs acreditam que as hienas Shenzi, Banzai e Ed não vivem nos domínios do reino pois brincam com a sua comida, coisa que feriria um código de honra implícito na cadeira alimentar. Fato é que esses personagens são interrompidos pelo rei, não podendo consumir suas presas (no caso, Simba e Nala), ou seja, tendo o ciclo sagrado da vida interrompido ao bel prazer do mesmo. Há de se argumentar talvez que ele interrompeu o plano do seu irmão invejoso, mas o mesmo não tinha ciência desse planejamento, já que ele caiu no ardil do vilão muito facilmente.

No exílio, o personagem principal encontra a dupla de personagens carismáticos e controversos, o suricato Timão e o javali Pumba, que muitos acreditam ser um casal gay, que tem um estilo de vida hippie, cuja alimentação não envolve mamíferos (a metáfora que os diretores buscavam para os insetos, era de que aquilo fosse um paralelo com sushi), mas o que se sabe realmente é que eles representam a fase infantil do homem, a recusa em assumir as responsabilidades e seu destino, que em suma, é o resumo da mentalidade de Hakuna Matata. A dupla de amigos é  tão destacada do resto dos personagens, que há até uma série com seus nomes, que mostra viagens dos dois pelo mundo, onde conhecem diversas  civilizações, bem ao estilo Chapolim Colorado, de Roberto Bolaños.

Outro fator engraçado é que Timão é mostrado como um animal pequeno, espirituoso e esperto, enquanto Pumba é grande, forte e um bocado lesado, não entende metáforas, e tem um complexo de inferioridade enorme. Os dois são renegados, que tem sua alimentação em animais nada nobres, e até passam essa mania a Simba (fica a pergunta se depois disso ele continuou comendo besouros, baratas e joaninhas), e considerando que o herói tem pensamentos bem volúveis e cabeça fraca, talvez a manipulação tenha realmente funcionado.

Scar é um vilão que beira perfeição por ter planos malignos e terríveis, executados de um jeito que é impossível não simpatizar. Seu maior feito maligno mora na manipulação que faz na mente do herói, usando seu discurso para culpar Simba, mas o sucesso (ou o fracasso) lhe sobe a cabeça, e ele comete um ato falho de vaidade, jogando a responsabilidade desse novo reinado nas hienas. O estranho é que mesmo nesse ato covarde, não há muita lógica no ataque que elas fazem a ele, pois certamente elas precisariam ter alguma autoridade entre os leões que ao menos garantisse a saída pacífica delas das Terras do Reino.

O final de O Rei Leão se divide em alguns atos, sendo um a chuva redentora que apaga o fogo do castelo real – a Pedra do Rei – que lava as jubas, pelos e a alma dos personagens bons, o rugido do novo soberano, e claro, a celebração de um novo ciclo da vida, com o filhote de Simba sendo apresentado ao reino, que aliás, voltou a ser próspero coincidentemente  depois que o verdadeiro rei voltou. Toda a trama pseudo infantil traz elementos bem trágicos e traumatizantes, que são aplacados é claro pela quantidade exorbitante de cores, pelas músicas que grudam na memória de adultos e crianças, e obviamente pelo formato de contos de fadas. Apesar das muitas acusações de plágio à obra Kimba, de Osamu Tesuka, a animação da Disney entraria para a história por subverter as expectativas do estúdio, provando para todos que seria possível sim trazer a luz uma animação clássica não baseada em historias famosas, desde que ela tivesse alma e cuidado por parte dos  animadores, e foi esse o caso deste filme, mesmo com as fragilidades do roteiro e as dubiedades do mesmo.

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