Crítica | O Sacrifício do Cervo Sagrado

Adjetivo duplo, então: Morbidamente cínico. O grego Yorgos Lanthimos conjura suas narrativas e perspectiva com uma excentricidade tola, e que se encerra nela mesma. Cineasta do vazio, como tantos que se proliferam numa velocidade impressionante (e que preocupa) no cinema pós-moderno, operando para as pós-verdades da era da web 3.0, a sua alegoria é da nulidade e o seu campo de análise é o vácuo que existe entre as pessoas, entre as coisas, ou mais precisamente aqui, entre o ceticismo que permeia a atualidade global (não acreditamos mais em lendas e nossos folclores giram em torno da tecnologia) e o credo nas nossas relações, rápida e igualmente pautadas em aparelhos que surgiram há pouco mais de duas décadas e redefiniram nosso olhar para o outro. Lanthimos parece ter um interesse fetichista por esse tema de sociedade global cyber impactada, e a cada filme seu, desde o bom Dente Canino até O Sacrifício do Cervo Sagrado, premiado em Cannes e tudo o mais, parece lapidar seu gosto apenas numa pegada diferente, sendo que não há profundidade aparente que o cineasta almeje tocar.

Para tanto, delineia com delicadeza confundida por alguns espectadores com sensibilidade a história do intruso, no seio familiar. História velha ainda que bela, travestida aqui em território cirúrgico: Médico (Colin Farrell, na segunda parceira com o cineasta depois do controverso A Lagosta) que se orgulha em nunca ter ferido um paciente sequer deixa-se envolver, a si próprio, esposa e filhos com um jovem em pleno desenvolvimento de sua identidade psicopata. A atuação coletiva do filme primeiramente merece palmas, em especial a de Nicole Kidman, excelente quando acha motivação e se permite ser a grande diva de Hollywood que é, e a do jovem assassino em formação, Barry Keoghan, cuja verdadeira potência de seu personagem infelizmente por nós nunca é atestada, tal qual as outras personas afetadas pelo garoto, devido a morbidez vaidosa que a própria história respira e caminha, vacilante rumo a uma tragédia de indiscutíveis probabilidades de acontecer – e quando irrompe, mesmo assim é questionável o impacto que nos proporciona. Lanthimos, em momento algum tenta evitar isso, nos afogando consigo na sua letargia que não atinge, tirando breves átimos, toda a tal da hipnose pretendida.

Há um quê às vezes subjetivo, e noutros instantes bem explícitos de A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar, mas também certa alma de Stanley Kubrick, contudo sem o mesmo pedantismo histriônico de ambas as mentes, o que melhora as coisas de certa forma. Mas, novamente no Cinema de hoje em dia, é a abstração temática e a abordagem cínica proposital que acaba com tudo, e faz lembrar muita gente, incluindo eu mesmo, o quão insuportável ainda é assistir famílias “tragicamente desdobradas de forma morbidamente cínica”. Não é esse mesmo filme que Michael Haneke recicla, todo ano? Uma pena. Fica-nos a impressão, aliás, diante de O Sacrifício do Cervo Sagrado, de que estamos assistindo uma melancolia que serve apenas ao olhar pessimista de um autor para a sociedade que vive, ou melhor ainda, quem sabe estamos aqui a observar um De Olhos Bem Abertos assexuado, sem o Tom Cruise, com a mesma belíssima Nicole Kidman, sem rituais de irmandades secretas, trilha sonora alguma ou o apuro kubrickiano agregando diamantes ao storytelling. Se tirássemos tudo isso do maravilhoso filme de 1999, o último do mestre que ele nem teve a chance sequer de assistir montado, o que teríamos? A resposta, especialmente a Lanthimos, o apóstolo grego sobre o nada, poderia ser bastante cruel.

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