Crítica | O Segredo de Davi

O cinema de horror no Brasil tem ganhado cada vez mais força. Antes, filmes de gênero se resumiam a guetos e a realizações de um ou outro diretor, como o veterano José Mojica Marins e o capixaba Rodrigo Aragão. Apesar de não haver uma enorme cena, ao menos há alguns expoentes recentes e O Segredo de Davi, escrito e dirigido por Diego Freitas, é um desses casos.

Davi é interpretado por Nicolas Prattes e a sua jornada é trôpega e cheia de esquisitices. O menino é tímido e aparece sempre solitário. A sensação estabelecida desde o começo é de que ele não tem amigos, e mesmo os colegas de estudos que saem com ele, parecem super distantes, por mais que bebam e interajam com ele.

Não há qualquer cerimônia em mostrar os hábitos estranhos de Davi, seja pelo fato dele ser um stalker ou por querer gravar vídeos com uma câmera muito velha e de resolução terrível. A timidez de Davi é tamanha que normalmente o deixa isolado e alvo de bullys, ainda que ele revide isso. Nesse ponto há algumas coisas estranhas, pois tanto o roteiro como o personagem meio que referendam questões pesadas como a romantização de um abuso moral.

A questão é que o roteiro de Freitas parece mirar uma história bem mais complexa do que sua capacidade de direção parece ter. Os diálogos são expositivos ou artificiais demais, os simbolismos são óbvios mas querem parecer super originais, as referências literárias a Platão soam presunçosos e as referências aos filme como Evil Dead e Cabana do Inferno soam deslocadas do restante da história, até porque estão presente em só um trecho do roteiro. Mesmo os desejos e sonhos comuns a qualquer pessoa, como a vontade de Davi se tornar um artista soa absolutamente antipática, não há qualquer ligação emocional do espectador com a história ou os personagens.

A parte onde o sobrenatural começa a atuar tem um início promissor, e os sonhos ou ilusões que o personagem tem dão a chance que a direção de arte precisava para se mostrar extremamente competente. Há momentos brilhantes nessas áreas, mas até nisso há um exagero e desequilíbrio, já que em alguns pontos da exibição há um mal uso de luzes, que soam agressivas e irritam os olhos da plateia no cinema. A maior parte desses artifícios não tem função, estão lá para mostrar que as pessoas sabem fazer.

O momento mais constrangedor e simbólico se dá em uma cena em que aparece um pombo digital de textura completamente irreal e defasada se tratando de um filme realizado em 2018. O longa carece de um bom ritmo, e por ter uma duração de quase duas horas, o torna enfadonho. Há uma sequência próximo do término que tem aparentemente umas três possibilidades de final, sendo semelhante ao jovem clássico O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, só que da maneira mais pejorativa possível. Toda a questão de ciclos e de retroalimentação das mortes poderia ser um argumento que ajudaria a salvar o filme, mas o foco claramente é na tentativa de criar uma persona de psicopata simpático em Davi, e isso faz com que o filme soe aquém até das propostas estabelecidas nele, o que é lastimável, pois Freitas parece ter um alto potencial como roteirista.

Facebook –Página e Grupo | TwitterInstagram.