[Crítica] O Trapalhão no Planalto dos Macacos

O Trapalhão no Planalto dos Macacos

O filme de J. B. Tanko explora uma trama subversiva, acompanhando a dupla de delinquentes Conde (Renato Aragão) e Alex (Dedé Santana), que teriam em seu encalço os agentes da lei, liderados pela figura do Guarda Azevedo (interpretado por Mussum, em sua primeira participação junto a Dedé e Renato), um atrapalhado policial afro-brasileiro. A rivalidade mostrada em tela se vale de muito humor físico que de tão idiota, acaba ganhando carisma, em piadas que anos depois seriam repetidas a exaustão no programa da Rede Globo.

A Guerra de Ovos travada em meio a uma granja é um absurdo de concepção e de execução, e funciona perfeitamente para ambientar o público de que esta seria uma fita calcada no nonsense e no humor escrachado. Tomando por base essa completa falta de noção ou bom senso, os dois marginais, unidos a Rodrigo (do candidato a galã Alan Fontaine) e o guarda acabam tomando um balão, que tinha o destino a Marte, o quarto planeta do Sistema Solar.

Uma vez em solo extra-terrestre, os personagens têm contato com uma realidade bastante diferente das que estão acostumados, primeiro encontrando diamantes espalhados pelo chão e depois, os atrapalhados forasteiros são capturados por macacos, que tem toda uma sociedade normativa fundamentada, com economia, castas, moradias etc. Ao reunir o bando, os símios soberanos pensam em transformar alguns dos intrusos em macacos.

 No meio tempo do filme, mudanças ocorrem na trama, onde os residentes marcianos permitem que os humanos façam as suas atividades, onde tentam estabelecer a energia elétrica no local, mesmo sem qualquer sinal de gerador ou fonte de eletricidade. O estratagema como um todo é de uma cretinice ímpar, onde a galhofa supera qualquer possibilidade de verossimilhança.

O caráter paupérrimo da produção é notado nos figurinos dos macacos. As máscaras não permitem uma boa audição dos atores fantasiados. O embrião do que seriam as boas paródias de Didi e companhia no futuro estava presente neste filme, mas ainda faltava muito da qualidade politicamente incorreta que seria a marca do grupo humorístico. No entanto, canalhice e desfaçatez que marcariam a carreira dos palhaços já eram flagrantes.

A realidade é que a maior parte das piadas se fundamentam em questões datadas e que funcionam poucas vezes. O maior trunfo acaba sendo as gracinhas de Mussum, que mesmo esforçadas não passam nem perto de ser o estouro das esquetes compartilhadas com Didi, Dedé e Zacarias. A intenção de Tanko em emular as antigas chanchadas esbarra exatamente no que seria o ponto forte de Renato Aragão à época, a comédia sem freios, a insistência na forma em detrimento do conteúdo. Com o decorrer da carreira, o diretor corrigiria o equívoco, apostando em melhores modos de contar as histórias da trupe.

Após um ardil enorme, Conde e seus amigos conseguem arquitetar um plano de fuga, onde punham os macacos para dançar em um baile improvisado. O método de saída obviamente dá errado, e eles se metem em uma briga generalizada com os primatas, sob um pretexto ridículo, unicamente feito para Mussum poder distribuir pancadas e sacudir sua bunda, rebolando no ritmo da batida.

Ao final da trama, questões verdadeiramente polêmicas são aventadas, como transformismo, crise de identidade e até relações conjugais entre espécies. Toda essa polêmica esbarra no modo de governo dos macacos soberanos e um conflito é travado entre as partes. Infelizmente, a interação entre os parceiros ainda é muito distante do bom desempenho que os comediantes teriam no futuro, o mesmo pode-se dizer do entrosamento entre atores e produção. Contudo, algo do sucesso posterior já estava no DNA do filme, como um protótipo que se preparava para alçar voos maiores, como seria em Guerra dos Planetas e Saltimbancos Trapalhões, anos mais tarde.

Ouça aqui nosso podcast sobre a saga “Planeta dos Macacos”.