Crítica | O Triunfo da Vontade

Em 1934 Leni Riefentstahl, uma cineasta alemã que acabou dedicando sua carreira e filmografia a registrar os feitos do terceiro reich, tratou de documentar a vitoria do partido nazista de Adolf Hitler. A primeira imagem é justamente da águia com a suástica e o ponto de partida é a festa do partido em 5 de Setembro de 34 em Nuremberg, onde se comemoravam as vitórias do governo tirano-fascista que assolou a Europa e o mundo nas décadas de trinta e quarenta do século XX.

O filme trata de relembrar a perda da primeira Guerra Mundial 20 anos antes do lançamento deste, e essa nova fase política é chamada pelas cartelas de texto como o renascimento da alma alemã. As primeiras cenas com agentes humanos mostram Adolf Hitler saudado pelo povo, desfilando em um carro oficial, glorificado e adulado pelo povo alemão, que o adotou como chanceler e líder.

É importante lembrar que esse é um filme propaganda, um dos expoentes da cultura que Joseph Goebbels ajudou a montar como máquina forte do Estado, que transformava manifestações artísticas em meras formas de exaltar o poder e o domínio nazi-fascista e autoritário da ala de poder de Hitler. Perder isso de vista é sinônimo de auto enganação e para contextualizar leitores não cientes do cenário histórico politico, Riefenstahl acabou se tornando um dos principais nomes do cinema alemão justamente por essa vontade de fazer documentários sobre o regime, passando não só pelo louvor a Hitler, mas também nos encontros que o líder austríaco teve com outras lideranças do espectro de extrema direita, como Benito Mussolini e as tropas italianas, no entanto nada impressiona mais que a série de discursos dos politicos nacional socialistas, entre lideranças locais e governadores de lugares ocupados, como a Polônia.

Os aplausos se intensificam com as falas de Goebbels, que destaca que a força autoritária alemã vem das mortes e tristezas de seu povo, evocando um sentimento nacionalista bem condizente com o discurso demagogo que a pátria deve ter seus anseios acima de qualquer outro ideal, justificando inclusive a segregação e obliteração de oposição ou algo que o valha.  Há um cuidado enorme em evocar um espírito de heroísmo e oportunismo barato, que se vale até do fato de Hitler ser veterano da  Primeira Guerra, ainda que claramente ele não tenha sido um dos que mais sofreu na pele a vitória dos opositores da Alemanha.

É preciso ter estômago para assistir ao filme, soa tragicômico a relação de falsidade que vem de Hitler para os mais novos com quem fala, em especial a Juventude Hitlerista, assim como a idolatria que esses moços o dedicam, e não seria um absurdo afirmar que nem toda essa reverência seja necessariamente imposta, pois o discurso repleto de preconceitos e lugar comum é fácil de ser aderido pelo jovem sem conhecimento, suscetível ao engodo proveniente desse pensamento segregacionista. Engraçado são as partes escolhidas por Riefenstahl para estampar o discurso, com Adolf falando que aquele era um movimento que não diferenciava castas ou credos, quando a maior perseguição era exatamente em quem não se qualificava como membro da raça ariana, “pura” e “ideal”. O discurso demagogo servia principalmente para os de fora ou as plateias mais adultas, eram parte da tentativa de verniz social que a Alemanha pregava, e o discurso daria certo se tivessem sido eles os vencedores da Segunda Guerra.

O final do longa metragem acontece em meio a grandes celebrações pós morte de militares e políticos importantes, com Hitler benzendo cada uma das novas bandeiras do exercito, cumprimentando um a um seus conterrâneos. Por mais o objetivo não fosse obviamente este, O Triunfo da Vontade registra uma fragilidade de discurso e estrutura do Reich, mostrando um bocado da hipocrisia alemã enquanto povo e dos oportunistas que tomaram o poder, mostrando bem como pode o sujeito comum se aliar a figuras nefastas basicamente por preconceito, prepotência ou por subestimar o potencial destrutivo de autoridades preconceituosas e castradoras.

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