Crítica | O Último dos Moicanos

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O Último dos Moicanos (The Last of The Mohicans, EUA, 1992, Dir: Michael Mann) é daqueles filmes que poderiam surpreender como um dos melhores da década, mas não chega lá, mesmo com a direção de Michael Mann e tendo Daniel Day-Lewis e Madeleine Stowe como protagonistas. Durante a guerra franco-inglesa na América com a participação de diversas tribos indígenas, Nathaniel Hawkeye, um branco criado por índios moicanos, se apaixona pela filha de um coronel inglês e ajuda a protegê-la e a sua irmã da nação inimiga huron.

O roteiro escrito pelo diretor junto de Christopher Crowe, baseado no livro de James Fenimore Cooper, segue a estrutura de filme de guerra na sua primeira metade. Quando as filhas do coronel inglês são atacadas pela traição dos hurons e mohawks, e depois salvas pelos moicanos e levadas ao forte, temos a premissa do filme: a frágil aliança entre homem branco e povos indígenas na América colonial.

Ao termos como protagonista e herói um homem branco como filho do líder dos moicanos, o filme sintetiza toda a forma de colonização do continente americano e expõe os seus problemas. Um homem branco abandonou a civilização e foi viver entre os indígenas, desta forma, ele está recusando o seu passado? Ele se recusa a participar da guerra entre franceses e ingleses, ele é confiável para os homens brancos ou até mesmo entre os moicanos? Ao se apaixonar por uma mulher branca, Hawkeye vai voltar a ser Nathaniel Poe e negar a sua criação entre os moicanos?

A divisão que a narrativa promove deixa a história mais interessante, abandonando a guerra franco-inglesa para a disputa entre moicanos e hurons. O tom de aventura passa a ditar a história e o embate entre Hawkeye e Magua se torna inevitável, mesmo que este aconteça entre o seu pai adotivo e chefe, Chingachgook (o verdadeiro último dos moicanos) e o antagonista.

A atuação de Daniel Day-Lewis se mantém num nível acima dos demais, porém o roteiro poderia dar mais destaque à sua capacidade dramática ao invés de dilui-la em suas cenas de ação. Inclusive tem um vídeo no youtube só com as cenas onde ele só corre. Madeleine Stowe consegue imprimir o que as cenas pedem à ela. Outro destaque do elenco é Wes Studi como o antagonista Magua, da nação inimiga dos hurons.

Daniel Day-Lewis correndo.

A direção de Michael Mann difere de todos seus filmes, geralmente policiais e urbanos, para uma aventura histórica. Ele consegue tirar boa atuação do elenco, ainda que limitados pelas cenas de aventura do roteiro. Porém, a decupagem, posição da câmera e o enquadramento mantém a qualidade de Mann como um grande diretor, mesmo estando fora do seu porto seguro.

A fotografia do italiano Dante Spinotti é naturalista dentro do possível do que o roteiro e a direção pedem. A edição de Dov Hoenig e Arthur Schmidt é linear e invisível, mas se destaca nas cenas de batalha, como quando eles são surpreendidos, e nas mortes finais, como a da Alice Munro e de Magua.

O Último dos Moicanos ainda mantém uma qualidade, fazendo com que possa ser apreciado ao longo dos anos. Mesmo não sendo a obra prima que poderia ser, o filme chama a atenção pela forte história e todas as questões que levanta ao longo de quase duas horas.

Texto de autoria de Pablo Grilo.