[Crítica] O Vale do Amor

As perdas deixam marcas profundas na trajetória de cada um. Ainda que o tempo traga possível compreensão e maturidade, há perdas densas que causam inicialmente uma ruptura além de qualquer explicação, exceto a dor.

Retomando uma parceria iniciada em 1980 em Loulou, o filme Vale do Amor, dirigido por Guillaume Nicloux, reúne novamente Gerard Depardieu e Isabelle Huppert em cena. Na trama, o casal Isabelle e Gérard perderam o filho recentemente por suicídio. Vivendo a inevitável dor do luto, o casal recebe uma carta do garoto, enviada por seu namorado, pedindo que viagem ao Vale da Morte, localizado no deserto do Mojave, nos Estados Unidos, para um reencontro familiar.

O charme da produção é confiar na excelência de seus atores. Em cena, entregam papéis sem recursos cênicos exagerados em que se revela a naturalidade de personagens comuns, um casal que, como diversos outros, se amaram, tiveram uma família, se perderam e agora permanecem apenas como memória um do outro sem reconhecerem os feitos presentes de cada um. Ao evitar nomes próprios fictícios, as personagem tem mesmo os nomes iguais ao dos atores, a trama adquire um tom pessoal e um pouco documental.

Diante de uma situação-limite, ainda mais em um local diferente da terra-natal, com uma língua distinta – as personagens continuam falando francês, apesar de pequenas intervenções em inglês – o choque por uma mensagem do filho morto se alinha ao natural desgaste de um casal que esteve junto em um momento anterior e que estão juntos nessa jornada improvável rumo ao vazio para realizar o último desejo do filho. Os belos cenários áridos potencializam esse misticismo, ressaltando a solidão dos pais em meio a um local deserto.

O argumento, porém, causa sua própria armadilha ao ser incapaz de sustentar um desfecho adequado ao enredo. A história tem bom potencial dramático mas ao explorar um fato impossível diante de uma narrativa realista, é necessário um final bem elaborado para que não perca sua força. Nicloux escolhe a saída mais fácil para uma situação difícil em um roteiro, o final aberto em que a interpretação do público é parte do desfecho. Uma saída comum para uma narrativa afetiva sobre o luto e a memória, salvos pela intensidade cênica de Depardieu e Huppert.