[Crítica] Os 300 de Esparta

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Em 1962 chegava às telas de cinema a película de Rudolph Maté sobre a batalha das Termópilas entre helenos e persas. Como era de praxe, a trama não tem quase nenhuma fidelidade histórica, mas a fidedignidade e veracidade não são os maiores problemas desse 300, a ambientação não é diferente de seus contemporâneos, seja nos figurinos espalhafatosos e em seus defeitos maiores.

O filme é lento, o protagonista demora a aparecer até para dar certa importância ao vilão e a pseudo-união entre os estados gregos. Os espartanos no discurso são retratados como guerreiros bravos, honrados e cheios de frases de efeito, mas com o decorrer da trama essa imagem é desconstruída.

Há uma forte carga moral, completamente incompatível com a época da batalha, e mais ligada ao momento dos anos 60. Um casal grego estabelecendo voto de castidade até o casamento seria um contra-argumento ao estouro da liberdade sexual, associada a movimentos ultra-culturais, mas as mensagens não param por aí. As alegorias passam também pelo confronto ideológico EUA x URSS na Guerra Fria. Espartanos são puritanos, corretos, se valem da força física para demonstrar sua superioridade ao resto mundo e acima de tudo, só se manifestam belicosamente após serem confrontados. Seus soldados são convictos da vitória, chegando a citar que uma vez que quando um “espartano entra na guerra” não há como perdê-la, essa arrogância é típica também do pensamento norte-americano, que se julga superior a tudo e todos.

A trama da possível traição também serve a questão da paranoia estadunidense, que via em muitos o ideal vermelho. O exército persa lembra em alguns momentos os selvagens índios que antagonizavam os Westerns clássicos. Há até um regimento no esquete grego que está lá unicamente para tocar flauta. As lanças jogadas parecem retiradas do jogo infantil pega-varetas.

Os discursos de união entre os estados proferidos por Leonidas (Richard Egan) são infantis e ufanistas. Os personagens são mal construídos, o drama apresentado por Ellas (Diane Baker) é bipolar, uma hora ela quer que seu futuro marido seja um guerreiro espartano na linha de frente e na outra quer uma vida tranquila no campo.

A redenção do suposto traidor serve unicamente para justificar o clichê do roteiro, de que todo espartano é um bravo. A esperança grega é toda pautada em fé, religião e visões inspiradas pelos deuses – semelhantes ao conhecido conservadorismo republicano.

A batalha final apesar de ser a mais bem filmada, ainda é mal feita. O maior erro do filme é não exprimir em tela a vantagem do desfiladeiro, claro, devido aos escassos recursos da época. O lendário batalhão não possui qualquer imponência, a força intransponível só foi demonstrado nas falas do “Rei Nicolau”.

A única demonstração de coragem real, foi a recusa em entregar o cadáver do nobre Leonidas aos persas. O rei é pueril, mas pode ser encarado como patriótico e inspirador. Os erros da produção são honestas, por isso não são tão gritantes. The 300 Spartans inspirou Frank Miller a escrever a Graphic Novel 300 de Esparta, e vale ser assistida para ter noção do que movia o cinema popular dos anos 60, antes da era dos blockbusters.