[Crítica] Os Dez Mandamentos – O Filme

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Dada a importância narrativa da libertação do povo hebreu e seu apelo entre os fiéis, muitas obras retrataram Moisés em diversas épocas. O recente Êxodo: Deuses e Reis de Ridley Scott mostrou ao público uma versão mais realista da história, com um Moisés trocando o cajado característico de sua jornada por uma espada de ouro. Em 1956, Cecil B. DeMille, com seu Os Dez Mandamentos, narrou a história do profeta com tamanha beleza, produção e efeitos especiais impressionantes para a época que se tornou o clássico definitivo do relato bíblico. Outras produções menos pomposas logo surgiram, como a versão ítalo-britânica de Gianfranco de Bosio, A Terra Prometida – A Verdadeira História de Moisés. Com trilha de Ennio MorriconeBurt Lancaster no papel do emissário de Deus, a obra foi lançada como minissérie em seis episódios para a televisão e depois editada em versão de cinema com duração reduzida pela metade. Assim como a fita de Bosio, Os Dez Mandamentos – O Filme não foi inicialmente pensado para a grande tela, e talvez por isso tenha tantos problemas. Primeiro fruto de uma nova produtora dedicada a projetos para o cinema, a Record Filmes, a película sofre da inexperiência da empresa e também de seu diretor, Alexandre Avancini, que já trabalhou em outras novelas, mas iniciante na sétima arte. Como marco da primeira produção, não condiz com a expectativa de um bom filme.

A obra é orientada pela estrutura narrativa tradicional da história de Moisés, encontrado em um cesto à beira do rio Nilo pela filha do faraó e educado na corte como príncipe. Mesmo que siga uma sequência cronológica mostrando a vida do profeta, um recurso didático para situar o público em sua trajetória, sobram cortes bruscos em eventos antes da descoberta da origem do protagonista. A interferência da montagem é tamanha que afetou o encadeamento das cenas, perdendo a percepção lógica dos acontecimentos. Sem planejamento, transformou-se em um recorte de sequências que só estão ali para demonstrar o poderio cinematográfico de apelo visual dispendioso investido pela emissora, como as cenas em câmera lenta, utilizadas em exagero no início do filme, e os efeitos especiais em cenas chave, como a das 10 pragas e da icônica abertura do Mar Vermelho.

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Interpretado por Guilherme Winter, Moisés descobre ser escolhido por Deus para libertar os israelitas da tirania do domínio egípcio. Winter não transmite credibilidade e parece estar o tempo todo discursando para um público distraído. Suas falas são pomposas e passam longe da humildade característica do profeta. À medida que o filme se desenvolve, porém, sua atuação melhora, demonstrando que o ator ainda não havia encarnado no personagem de fato. Uma falha que, se não perceptível em uma novela de 176 capítulos, é ampliada no filme de duas horas.

A maioria dos personagens apresentados é burlesca, exagerada na dramaticidade própria da linguagem da telenovela. Sérgio Marone, o Ramsés, o irmão egípcio do líder hebreu e agora rei, não encontra um tom de atuação: ora condescendente com a figura fraterna, ora perdido com a responsabilidade de governar. Embora o ator tenha nuances, ele não as usa de modo coerente com o personagem. Por outro lado, a atuação de Paulo Gorgulho, que interpreta Amrão, pai de Moisés, sobressai-se perante os demais mostrando-se mais porta-voz da fé que integra o povo hebreu que o próprio filho, liderando os iguais a acreditar na libertação e no retorno a Canaã. Representado por uma voz grave e soturna do além, o conceito de Deus no filme de 1956 de DeMille é mantido, o que comprova que, embora a novela tenha um projeto próprio de adaptar uma história clássica, ainda remete ao que o público já conhece. Ambas reverenciam a entidade sábia e revoltosa do Velho Testamento, escrito em uma época na qual creditavam os infortúnios à divindade dominada pela fúria e justiça divina.

Os Dez Mandamentos – O Filme, cujo final de semana de estreia já somou mais de dois milhões de ingressos vendidos, não soube transportar uma mídia a outra e parece agradar ao público religioso pela carga popular que a novela sustenta. Levado pelo sucesso do folhetim, que se tornou referência nacional como a primeira telenovela baseada em uma história bíblica, o filme no entanto carece de qualidade cinematográfica e técnica, provando que não basta investir milhões em efeitos especiais quando o básico – montagem, continuidade, ou simplesmente edição – torna-se mero figurante no processo de fazer cinema.

Texto de autoria de Karina Audi.