Crítica | Os Garotos Selvagens

Vencedor do Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Veneza e eleito como o melhor filme do ano pela revista francesa Cahiers du Cinéma, Os Garotos Selvagens é o primeiro longa-metragem de Bertrand Mandico, conhecido por curtas e médias de cunho experimental.

Passado no início do século XX, o longa acompanha cinco jovens rapazes de famílias ricas que acabam cometendo um crime bárbaro. Na expectativa de mudarem o comportamento agressivo dos filhos, as famílias confiam os jovens ao misterioso Capitão, que promete transformar todos eles em seres dóceis e antiviolência em uma viagem em alto-mar.

Lembrando de forma honrosa Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, Os Garotos Selvagens é um dos filmes mais originais do ano, assim como também traz temáticas e símbolos extremamente pertinentes para a atualidade. A passos tímidos, essas temáticas vão surgindo na narrativa de maneira que a primeira parte do longa flutue na percepção do espectador como uma incógnita, o visual entre espectros do fantástico e do sinistro sustenta bem o filme, ainda mais com sua montagem sugestiva ao experimental.

Quando o grupo de rapazes chega ao destino da viagem e inicia-se a segunda parte desta história, fica mais claro do que se trata a obra de Mandico. É delicado discursar sobre este segundo momento do longa, até exaltar o elenco se torna perigoso, e para não interferir em futuras experiências pode-se dizer que de fato é um trabalho de atuação minucioso e bastante interessante.

O filme percorre os campos temáticos da masculinidade, da violência, das crenças, e principalmente, da sexualidade e o que vem dela ou através dela. Com uma direção de arte inspirada nesses caminhos, é um deleite se perder entre espaços estranhos e simbólicos, além da fotografia que se utiliza na maioria do tempo do preto e branco, reforçando talvez o quanto assuntos são mais antigos e enraizados do que imaginamos.

Em um apuro estético irretocável e com discurso afiado, mas prejudicado pelo final expositivo e até certo ponto anticlimático, Bertrand Mandico estreia entregando uma fábula atrativa e incômoda. Que tenha nossa atenção.

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