Crítica | Palace II: Três Quartos e Vista Para o Mar

Há  vinte anos atrás no começo do ano de 1998 uma tragédia chocou o Brasil inteiro. Lembro como se fosse hoje da implosão de um prédio na Barra da Tijuca e da já noção do quanto os engravatados de Brasília eram poderosos e mesquinhos. Palace II: Três Quartos e Vista Para o Mar é um documentário de Gabriel Corrêa e Castro, que dez anos atrás fez o curta Poeira nos Olhos, também sobre o prédio, e Rafael Machado, e resgata a memória de muitos moradores do Palace II.

Apesar de toda a surpresa da população, o que se diz logo no início do filme é que essa tragédia já era anunciada, visto o histórico da falta de qualidade nos imóveis e moradias de Sérgio Naya, principal responsável pelo conjunto habitacional. O começo do registro se dá com tomadas aéreas mostrando como ficou o lugar onde já esteve o Palace.

Talvez para quem não seja do Rio não haja a percepção real do que era morar na Barra naquela época, pois o bairro era a chance mais barata de ficar perto da praia, o paraíso dos emergentes. E da boca das vítimas vêm a notícia de que o prédio demorou a ser entregue e já com as pessoas habitando ali se notava que o lugar estava inacabado. Os últimos andares não tinham um tratamento básico, faltava porta, janela, tinta nas paredes, nada parecia estar realmente pronto. As imagens de arquivos hoje soam até engraçadas, embora ainda assim sejam trágicas, com moradores tentando bater nos empreiteiros que os acusavam de invasão, mas mesmo com esse tipo de atitude, o que se via era uma total blindagem em cima de Sérgio Naya, o real responsável por tudo aquilo.

O material claramente era de péssima qualidade. Para os peritos que verificaram o local havia muito mais areia e barro do que cimento. Quando um morador pregava um quadro, o prego descia rasgando as paredes de quaisquer que fossem os cômodos. A fachada era linda, mas o interior era deplorável.

O registro sobre o fatídico dia 22 de fevereiro de 1998, é bem detalhado. O prédio balançou bastante no meio do carnaval e se viam rachaduras enormes ao longo de todo o edifício, e sob ordens de um moderador que era engenheiro, começaram uma evacuação emergencial. Há cenas descritas dignas de filmes de horror, como o momento em que uma família espera o elevador, desesperada por conta das escadas não estarem mais transitáveis, e ao abrir a porta do elevador se dá conta que tijolos deslizaram lá para dentro. Outro momento marcante, esse já registrado em vídeo, foi a segunda queda, que produziu uma espécie de cachoeira, assim como a implosão, igualmente dantesca.

O filme é um pouco burocrático, e tem um formato de reportagem televisiva, mas apesar disso dá para notar o quão sincero era o choro da perda de referencial das famílias. Os momentos de garimpo dos bens, onde cada andar do prédio parecia uma fatia de lugar com apenas vinte centímetros dá a dimensão de como aquelas pessoas se sentiam. Mas Naya era poderoso e muito generoso com seus colegas, emprestava imóveis quando eles não tinham onde morar tendo então um conjunto de favores prestados e que poderiam ser cobrados. A cassação demorou a ocorrer e o processo se arrastou. Em 2001 os moradores ainda estavam em quartos de hotel e alguns ficaram nessa condição por quase dez anos. A via crucis envolvia a tentativa de vencer pela cansaço, com ofertas ofensivas e argumentos fracos de que aquilo foi um erro de cálculo.

O filme de Machado e Castro mesmo tendo bons depoimentos não consegue causar tanta comoção quanto pretende. Não há qualquer linguagem mais cinematográfica, remetendo a uma matéria de televisão editada com 84 minutos, que serve mais para rememorar do que emocionar com a sua triste história.

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