Crítica | Papillon

Papillon de Franklin J. Shaffner é um clássico praticamente intocável. As atuações de Steve McQueen, Dustin Hoffman e o texto de Dalton Trumbo dão à obra um caráter diferenciado, resultando num filme que mostra grandes performances e uma mensagem nas entrelinhas muito forte. Quando anunciaram uma nova versão do livro de Henri Charrière, com Charlie Hunnam vivendo o personagem-título, muito se temeu. Bem, o temor não se deu à toa.

Este novo Papillon é conduzido por Michael Noer, e mostra Hunnam como um saqueador de diamantes acusado de assassinato. Nesta versão, o ocorrido não é dito, mas mostrado em tela, o que poderia ser algo positivo, mas que aqui soa ofensivo de tão expositivo. Tal qual o material literário, conhecemos o flagelo dos presos que são levados até a Guiana Francesa como prisioneiros da França, e Papi (sim, as pessoas o chamam assim) conhece Dega (Rami Malek), um rico falsário rico bastante frágil fisicamente. Em prol de uma fuga, surge um acordo, onde o mais forte protegeria o mais fraco, enquanto caberia ao outro os custos da empreitada.

Noer tenta fazer uma história diferente do clássico setentista, e a atmosfera é claramente diferente. A ideia do filme não é fazer um comentário político como foi o seu antecessor. Se prosseguisse somente nesse toada, o saldo poderia ser positivo, mas em alguns pontos tenta-se reformular cenas clássicas, e na maior parte delas o esforço soa fútil demais.

Ao menos, Hunnam tem um bom desempenho. Nos primórdios de Sons of Anarchy o ator foi bastante criticado por parecer inexpressivo, mas ao poucos melhorou e por ser esse um produto de época, a associação com Rei Arthur: A Lenda da Espada é quase automática, em especial pelas primeira cenas, mas logo seu desempenho faz melhorar a sensação de vê-lo em tela. Malek também tem um desempenho razoável, o grande problema se dá no roteiro de Aaron Guzikowski, que produz poucos momentos de inteiração onde o espectador consiga realmente se importar com o que ocorre com os prisioneiros, mesmo com todo o sofrimento existente naqueles que tem sua liberdade privada. Incrivelmente, um filme de mais de quarenta anos consegue estabelecer um visual muito mais crível com  a realidade de prisioneiros em condições desumanas do que esta produção, onde tudo é limpo demais e sem identidade.

Os últimos momentos tem uma brilho um pouco maior, visto que as partes que mostram o protagonista vivendo na solitária servem para Charlie Hunnam justificar o alto cachê que recebeu, mas o sentimentalismo barato e sensacionalista acaba jogando tudo para o alto. A direção de Noer tem seus momentos, mas o roteiro entregue não parece ter colaborado com o seu trabalho.

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