Crítica | Pequena Grande Vida

Após uma sequência de filmes praticamente irrepreensíveis, como Eleição, As Confissões de Schmidt e Sideways, o diretor Alexander Payne passou por uma sequência de altos e baixos. Para muitos, Descendentes havia sido seu pior filme até então, mas o fato de Nebraska ter tido o reconhecimento que teve acabou de certa forma mascarando o insucesso anterior. Quatro anos se passaram e finalmente chega as telas seu novo projeto, Pequena Grande Vida.

Num mundo onde a superpopulação é a maior preocupação, cientistas descobrem que a solução é encolher as pessoas a um tamanho centimentral, a fim de consumir menos recursos. O herói da jornada é o profissional da saúde Paul Safranek (Matt Damon). Ele é casado com Audrey (Kristen Wiig) e após conversar com alguns amigos e com a família, decide então se submeter ao processo irreversível de diminuição. No entanto, sua companheira desiste do processo após ele ter sido reduzido e ele se vê sozinho em um mundo que parece ser habitado unicamente por conservadores brancos que buscam tornar suas pequenas poupanças em verdadeiras fortunas.

Toda a propaganda para que as pessoas venham a aderir a ideia é envolta em uma fala repleta de engodo, parece ter ali uma ironia que será seguida de um enorme problema. Ao menos na vida de Paul, não é isso que acontece. As agruras que lhe ocorrem são apenas pessoais, e ele segue toda a duração do filme como um sujeito bonachão e extremamente alienado, mesmo quando tem contato com outras culturas e necessidades. O ponto de virada em sua trajetória é quando ele encontra o seu vizinho sérvio Dusan Mirkovic, um europeu trambiqueiro interpretado por Christoph Waltz. É através dele que Paul conhece Ngoc Lan Tran (Hong Chau), uma ativista vietnamita que foi diminuída a força por seu governo, e que nesse novo mundo, se tornou uma faxineira de pessoas ricas, que tem por hábito levar remédios vencidos e sobras de comida para as pessoas de seu gueto.

A viagem até um ambiente pequenino não tão controlado quanto é o subúrbio onde Paul mora deveria chocar o público, mas não o faz, no entanto, causa espécie no personagem principal, já que ele percebe uma camada social que ele não fazia ideia de que existia. Ainda assim, sua ideia de ajuda passa por alguns momentos estranhos que o fazem enxergar os que sofrem essas mazelas como pobre coitados, mesmo que suas vidas tenham alegrias e tristezas comuns as de qualquer outro homem. A ideia de homem comum não passa na cabeça dele, afinal ele enxerga aquilo como uma sub-vida.

É curioso como o sub-texto inconsciente do roteiro de Payne e Jim Taylor fala mais do que as camadas superficiais de sua história. Todo o discurso pseudo-ecológico em tom de livro barato de auto-ajuda não deixa de soar piegas em momento nenhum. As interferências de direção de Payne são bonitas visualmente mas são mal engendradas textualmente. A personagem de Tran que num primeiro momento parecia ser inspiradora soa bastante boba, não só pela barreira da língua, mas também por ter tido toda sua luta idiotizada. A poetização do ridículo passa um bocado do ponto, tencionando tanto se tornar jocoso que quase todas as viradas de roteiro soam previsíveis e pretensiosas, Pequena Grande Vida pouco acrescenta nas discussões que propõe, com quase nenhuma boa performance do grande elenco que possui.

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