Cinema

[Crítica] Permanência

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Na esteira do possante e cheio de verve cinema pernambucano, Permanência faz ressonância com o tema de retorno a vida comum e a adaptação a um novo estilo de vida através da personagem de Irandhir Santos, Ivo, que é recém-chegado do Recife para a megalópole paulista, lotado na casa de Rita (Rita Carelli). A diferença climática é o primeiro dos muitos aspectos diferenciais entre as duas capitais brasileiras, unidas por destinos de seres que buscam um estilo de vida melhor e mais situado na realidade.

Leonardo Lacca usa seus poucos minutos em tela para apresentar uma história de reconciliação, munida de verossimilhança, sensibilidade, além de uma intensa relação com as vicissitudes da realidade. O foco na profissão de fotógrafo de Ivo faz relembrar a valorização do ato de contar histórias através de imagens, não só na fotografia de Pedro Sotero, mas também no roteiro de Lacca.

O texto é arredio e não tem qualquer receio em exibir questões espinhosas, como a necessidade de comércio da arte e a crescente discussão em relação à legalização das drogas, especialmente a maconha. A simplicidade da história é o principal fator que faz o espectador se afeiçoar pelas personagens, inclusive por tratar de dramas humanos universais, comuns em quase todas as classes, gêneros e pessoas.

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Apesar da rusticidade do script, o texto não se reflete de modo banal ou simplório, pelo contrário. Os fatos narrados pela câmera fazem eco com o clamor da alma do espectador, apresentando um sem número de sensações intimistas. O diálogo sentimental que a película faz com a realidade é abissal, mostrando um aspecto comuníssimo de maneira original, e ainda assim passível de simpatia, especialmente para o espectador que está ou esteve em qualquer tipo de relação amorosa ou sexual. As indiscrições e infidelidades não são tratadas de modo maniqueísta, ao contrário, revelam uma humanidade poucas vezes vista no cinema mainstream, sem exacerbar qualquer aspecto grosseiro ou grotesco.

Nada fala mal alto no filme do que a nudez recorrente de Rita Carelli. Em cada fragmento de sua pele alva contém uma parcela de volúpia e desejo por amor livre, manietada é claro pelo julgo do casamento. Mesmo nas cenas em que habita o mesmo cenário que seu marido, há uma diferença visual enorme de postura e semblante, exibindo visualmente a distância abissal que existe entre ambos, tanto em diálogo quanto em pelo, suor, corpo e pelo.

As belas atuações de Irandhir Santos e Carelli fazem reverberar o conto repleto de solidão e arrependimento, compondo um quadro bem urdido, graficamente belo, como a maioria dos trabalhos expostos por Ivo em sua mostra. A quantidade acentuada de emoções conflitantes agrega um conteúdo curioso, ainda que não seja de profundidade enorme, até por se tratar de aspectos comuns e inexoráveis do cotidiano.

O tempo inteiro a narrativa monta uma ponte entre Recife e São Paulo, aludindo possivelmente a ascensão que o cinema de Pernambuco tem tido nos últimos anos, a exemplo de Som Ao Redor, de Kleber Mendonça, e da pérola de Camilo Cavalcante, A História da Eternidade. O crescimento de Ivo enquanto artista que expõe seu trabalho dialoga diretamente com esse novo crescente regional, mas carrega assuntos ainda mais ligados a intimidade humana, evocando expectativas, sonhos, anseios e remorsos, para uma parte mais palpável da alma do homem.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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