[Crítica] Personal Shopper

Estreando em Cannes como um divisor de águas (fato que se tornou evidente pelas vaias que brotavam nos intervalos das palmas), o novo feito da dupla Assayas-Stewart é, no mínimo, algo para entrar na lista de prioridades de qualquer um que se interesse por cinema. E a frase anterior pode até carregar um tom de autoridade, mas é nesses filmes de opiniões tão dissonantes que se encontra o que clama para ser visto e discutido, independente de quanto o telespectador amará ou odiará no final.

Personal Shopper é um longa-metragem escrito e dirigido por Olivier Assayas (Acima das Nuvens, Horas de Verão) e estrelado por Kristen Stewart. Um drama que se mescla com terror e gera uma obra de natureza única, utilizando-se de diversas ferramentas do gênero para tratar de temas complexos, entre eles o luto, ao mesmo tempo que aborda a questão espiritual de maneira distinta. O longa acompanha Maureen, uma médium que busca entrar em contato com seu falecido irmão, ainda que se veja detida de se dedicar completamente a isso graças a seu emprego como personal shopper, relacionamento amoroso e algum tipo de perseguidor.

O primeiro passo para compreender a densidade desse filme se faz pela percepção do que cerca Maureen. Ela é uma personal shopper, ou seja, é alguém que apresenta discernimento, “gosto”, para selecionar as roupas a serem alugadas ou compradas para compor o guarda-roupa e estilo de quem a contratou, no caso em questão a celebridade Kyra (Nora von Waldstätten). Percebe-se, então, que o atuante nessa profissão é um tipo de avatar, um link entre pessoas de um mundo de status econômica e socialmente elevado e essa atividade mundana tão banal, a compra de roupas. Ao mesmo tempo, Maureen é uma médium. É alguém que apresenta “sensibilidade” para entrar em contato com almas atormentadas, habitantes de outro plano que por algum motivo conseguem atuar no mundo humano. Também médium era seu falecido irmão, com quem logo no início busca contato em uma sequência de “casa assombrada”, já que prometeram entrar em contato um com o outro caso morressem. De duas maneiras, na sua profissão e seu dom, ela demonstra a sensibilidade para atuar como ponte entre realidades, tal como faz uma atriz.

As atividades previamente citadas se realizam enquanto a personagem encara o doloroso período de luto; o extenso tempo de questionamentos e busca por respostas. O falecimento de seu irmão, inclusive, se deu por uma doença que Maureen também compartilha. É o conjunto de todas essas ações junto ao contexto que a colocam no intermediário entre o que era e o que virá a ser. É o que faz com que transite entre ela mesma e outras identidades, seja alguém como o irmão ou Kyra, a vida ou a morte. Da mesma forma é a natureza da comunicação com seu namorado, que está em outro país, através de vídeo-chamadas; seu perseguidor entra em cena por mensagens de celular, que são utilizadas por uma extensa parte da história enquanto incrivelmente conseguem manter a tensão. E nada disso seria tão bem realizado como é se não fosse a direção de Assayas e atuação de Stewart.

Kristen Stewart efetua com louvor as dinâmicas demandadas pelo roteiro. As nuances de sua atuação reafirmam a temática geral da obra por manter o luto enquanto aflita, contente, impaciente; por ser ela mesma ao mesmo que não, pois em sintonia com o tema de transição também se faz a personalidade de Maureen. Fator esse que também esteve presente em Acima das Nuvens, longa prévio de Olivier no qual Stewart contracenou com Juliette Binoche. Entretanto, aqui Stewart está grande parte do tempo sozinha, ou com um celular. É um enorme testamento para sua capacidade como atriz o feito de acompanhar o desenvolvimento e manter coerente e coesa, ao mesmo tempo que progressiva, sua interpretação.

É notável do roteiro a maneira orgânica com que se permite transitar entre os temas; o luto assombra, porém ao mesmo tempo há a relação de Maureen com seu namorado, a questão espiritual e a do perseguidor, além da mescla de gêneros cinematográficos. Por exemplo, a sequência de abertura anteriormente mencionada, a casa assombrada, demonstra as habilidades de Assayas como diretor para além da autolimitação de qualquer estilo que seja. É um diretor que sabe como moldar a atmosfera e o ritmo do que ocorre em cena em prol da cena; seja uma casa assombrada, ou a escolha de alguma roupa de alta costura. Da mesma forma quando corajosamente logo confirma a existência dos espíritos e não brinca com o “será que fantasmas existem?”. Olivier sabe no que deve focar, ou não, para tirar o melhor proveito de sua narrativa.

As finalidades de Assayas para realizar uma obra como essa não são o ponto principal, já que perceptivelmente ele não busca respostas. Por isso há o desenvolvimento e dispersão de tantos assuntos que se encaixam de forma tão certa nessa história. Esse é realmente o fator mais impressionante: a maneira com que o filme se permite comunicar com a audiência para além de prévias concepções sobre qual o caminho correto para tomar com os atributos aqui apresentados. Há sinais aqui e ali, manifestações de algo que quer comunicar, mas acabamos tendo que nos satisfazem com o vulto; sejam eles o luto, um perseguidor, os espíritos; um olhar, o cinema e nós.

Texto de autoria de Leonardo Amaral.

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