Cinema

[Crítica] Perversa Paixão

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Perversa Paixão - poster - capa bd

A inquietude de Clint Eastwood proporcionou em 1971 uma nova função para sua carreira cinematográfica assumindo, além do papel principal, a direção no suspense Perversa Paixão. O primeiro passo de um diretor que seria ilimitado em suas produções, ousando a cada novo lançamento e destacando-se com um estilo pessoal de filmagem apoiado em suas inspirações e nos ensinamentos ao lado de Sergio Leone e Don Siegel, entre outros com os quais trabalhou.

Rodada em apenas 21 dias, marcando a economia que se tornou exemplo seguido na carreira de Eastwood, sua estreia se destaca pela narrativa intensa e um estilo que, desde já, apontava-o como um grande diretor contemporâneo devido a coerência narrativa. Ainda que este filme não seja destacado como suas produções posteriores, é notável a segurança pela qual o diretor assume o cargo e imprime suas características neste ofício como se fosse um processo natural além de um desejo.

Na trama, Dave é um radialista de sucesso que mantém um programa diário nas madrugadas. Devido ao estilo mulherengo e bon vivant, perde a namorada após uma traição. Um dia, uma de suas ouvintes o encontra e os dois iniciam um breve romance, o qual faz a garota não se sentir disposta a ser dispensada por outras mulheres, iniciando uma perseguição obsessiva pelo locutor.

O suspense se apoia na fixação da mulher diante do radialista, uma situação que transforma a adoração em assédio, permeada por uma visão equivocada do amor. Um conflito agressivo que fez de outra produção, Atração Fatal, um clássico do gênero. No decorrer da narrativa, a história cresce acompanhando a loucura da fã através de um amor obsessivo e sem razão aparente.

A precisão da fotografia em tons escuros apoia a tensão dramática em cenas feitas à meia-luz, representando simultaneamente tanto um cotidiano realista quanto amplifica a carga de suspense. Uma característica de composição de imagem que Eastwood manteve em sua filmografia ao lado de cenas que abrem em panorama e terminam focalizando a personagem principal.

Como amante obsessiva, Jéssica Walter, cuja atuação concorreu ao prêmio de Melhor Atriz em 1972 no Globo de Ouro, brilha como a fã sedutora que vê no locutor um amor ideal. A sensualidade inicial da personagem vai se transformando em possessão e raiva conforme o radialista nega a relação com Evelyn, resultando em ataques verbais e físicos. Mesmo que a escalada de agressões deixe implícito que atos extremos surgirão, a incredulidade do radialista diante de tais atos reflete a impressão e emoção do público.

Devido ao distanciamento temporal desta produção, é possível observar a modificação crítica no decorrer no tempo. Inicialmente, a recepção não foi positiva. Porém, a construção de uma carreira sólida na direção aponta hoje para uma melhor análise para esta primeira produção bem composta como um thriller de suspense, e que destacava o estilo do diretor. O talento de Eastwood sempre se fez presente, não à toa sua obra seguinte, O Estranho Sem Nome, retomaria com qualidade o estilo que o consagrou: uma bela releitura que se tornaria seu primeiro grande filme como cineasta.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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