Crítica | Peterloo

O veterano Mike Leigh tem dedicado sua filmografia a resgatar antigos retratos de pessoas notórias e registrar momentos grandiosos e importantes da humanidade. Em Peterloo, o cineasta fala a respeito do massacre ocorrido em 1819, onde protestos pacíficos pró-democracia em St. Peters Field acabaram resultando em uma situação sangrenta em plena Inglaterra do século XIX.

Antes mesmo de mostrar o massacre que o governo impingiu a sua população – foram em torno de 60 mil protestantes, tendo muitos mortos e feridos nesse montante – Leigh faz questão de mostrar sessão na câmara legislativa, onde se julga o destino do povo e se ignora por completo as questões que o povo pleiteia, em especial no que toca a pobreza extrema que muitos deles vivem.

Uma das principais mostras que Leigh dá ao mostrar o quanto o povo é flagelado, mora no personagem de Tom Meredith, o garoto Robert que é um veterano de guerra que vaga pelas ruas uniformizado procurando trabalho ou pedindo esmola, sem nenhum tipo de indenização mesmo tendo ficado demente graças aos conflitos pelos quais passou. Aliás, o filme não economiza nas questões que retratam os miseráveis e apela para a crueldade que ocorria via justiça a revelia de qualquer tratado de direitos humanos, mostrando inclusive um homem sendo condenado a forca por roubar um casaco.

Rory Kinnear (o mesmo que havia feito um ministro nos primeiros episódios de Black Mirror) faz a autoridade que discursará no tal evento de greve. Seu personagem Henry Hunt é um homem esnobe e que se julga muito justo, seu discurso é o de busca ao povo a voz e a representatividade, mas a realidade passa longe disso.

Em alguns pontos, Leigh emula o cinema de David Lean misturando ao caráter de discussão de Constantin Costa-Gravas, em especial no que tange o medo dos poderosos de que a Revolução Francesa seja reprisada na Grã Bretanha. As falas de Hunt, que deveria ser apaziguadora  soam como gasolina que inflama a plebe a reagir de maneira não pacifica e o conflito, quando acontece é fiel demais a história, e soa meio bobo e lento no quesito ação, sendo patético em alguns pontos exatamente por ser ultrarrealista.

Peterloo ainda tem um epílogo que mostra o rei tranquilo e asqueroso, alheio a tudo que acontece ao povo e serve como um manifesto de Leigh contra a monarquia que ainda vigora nas terras inglesas, em um filme que peca um pouco em seu ritmo, mas é muito acertado por não subestimar a inteligência do seu espectador e por não se permitir ser complacente de forma alguma com os poderosos.

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