Crítica | Por Uns Dólares a Mais

Por Uns Dólares a Mais foi Sergio Leone mostrando um pouco mais de sua ambição, e os fundamentos justificáveis a tanto. Ainda sob o pretexto dos homens sem passado, e muito provavelmente tidos como sem futuro, sendo arquétipos de uma masculinidade agressiva em uma terra sem-dono e sem-lei, a história agora gira em torno de dois homens, dois caçadores de recompensa e seus cavalos cujo alvo é um dos grandes vilões do faroeste, o cruel e implacável Índio. Aliás, Leone arriscou ter um assumido vilão numa filmografia de estereótipos constantemente superados por personagens nem bons, nem maus, apenas sobreviventes de uma realidade árida em todos os sentidos.

Por ser o filme do meio da famosa trilogia dos dólares, reverenciada por tantos cineastas e outros entusiastas críticos mundo afora, o filme de 1965 tinha a responsabilidade de expandir e solidificar da melhor forma possível aquele mundo de bang bang, já tão Leônico, com assinaturas reconhecíveis do mestre (elementos de set, diálogos, paleta de cores, efeitos sonoros, trilha sonora de Ennio Morricone, até mesmo ângulos de câmera típicos do mestre, como hiper closes e zoom chicote), aqui mais bem desenvolvidas que no primeiro exercício cinematográfico de antes. Pois, se Por um Punhado de Dólares ainda detinha uma aparência e uma vibe ainda experimentais não apenas em sua estética inconfundível, mas na sua premissa e construção de mundo, sua continuação é mais divertida, mais bem resolvida em si, e produzida com primor e consciência superiores por parte de Leone do material riquíssimo que tinha em mãos, tratado com exímia classe na ação.

Uma ação que nos arrebata a cada sequência. De um trabalho para o outro, com apenas um ano de maturidade artística separando-os, o filme ainda carrega consigo a responsabilidade de entreter e provocar reflexão a partir de sua potência estilística, ou seja de sua carga estética e imagética, mas com uma sofisticação notável e cada vez mais forte na abordagem dos temas que movem a trama. O fato torna-se absolutamente claro numa ótima sequência, motivada por grana e por orgulho, onde o pistoleiro Blonde (Clint Eastwood) mostra-se mais rápido que o fantástico ator Lee Van Cleef atirando no seu chapéu, mas é Cleef que mostra-se mais preciso fazendo o chapéu de cowboy do outro virar uma peneira de pano. A forma como o breve e hilário duelo de habilidades é filmada é formidável, usando sem abusar de um domínio elegante na mise em-scène que Leone ainda não havia demonstrado em outros pequenos grandes momentos da sua carreira.

A aposta no poder do visual, puramente falando, é acentuada aqui e nos torna refém do bom gosto talhado em tela. Noutra sequência que deve ter destaque sobre o assunto do apuramento visual presente no decorrer da fita, também se baseando na ausência de diálogos, menos famosa mas tão icônica quanto a outra, Blonde chega numa vila e demonstra sua precisão no gatilho ajudando um garoto a pegar frutos de uma árvore ao atirar neles, e derrubando-os. Nisso, atrás dele, o personagem de Cleef também resolve demonstrar ser um oponente (ou amigo) a altura do primeiro, e derruba alguns limões da mesma árvore frondosa. Eles se olham, e um percebe do que o outro é capaz, algo imprescindível para as situações de conflito e competitividade que melhor retratam a trilogia, em questão (ela merece o nome que tem). Uma das inúmeras piadas visuais do filme.

Aqui, Leone ainda não se levava tão a sério como se levaria, adiante, talvez por ainda não ostentar a alcunha de mestre que viria a ganhar, logo em seguida, mas já estavam no seu campo grande elenco jogando com seus elementos dispostos para a construção formal de seus clássicos (o ator Gian Maria Volonté dá um show, encarnando de verdade a personalidade sádica do detestável Índio, talvez o mais marcante personagem da trilogia). Na época, é incrível pensar como Por uns Dólares a Mais foi considerado apenas mais um western spaghetti (sub-gênero que ajudou a emblemar) com a cara de seu criador, e se hoje consta na lista de inúmeros cinéfilos como um dos melhores, ou um dos mais divertidos exemplares já estabelecidos na história da arte que o abraça do seu gênero, é porque o tempo basta por ser justo, e recompensa com a lembrança de bom grado da existência então ignorada de joias como essa que podemos ter a sorte e o prazer de rever, e rever, sempre.

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