[Crítica] Power Rangers

Quando Power Rangers chegou à TV aberta brasileira, em janeiro de 1995, na programação da TV Colosso, o gênero não era nenhuma novidade para o público tupiniquim. Acostumados com os Super Sentai japoneses exibidos na extinta Rede Manchete desde a segunda metade dos anos 1980, as crianças brasileiras já conheciam os esquadrões coloridos que lutavam contra monstros de borracha em seus robôs gigantes. Changeman, Flashman, Goggle Five e Winspector fizeram grande sucesso no país, mas a chegada de Power Rangers mudaria todo o cenário dos Tokusatsu por aqui. Isso porque a série utilizava as cenas de lutas de Jyu Rangers (que nunca foi exibido no Brasil) mesclando à cenas com atores norte-americanos, e esse se tornou o padrão de exibição para o público ocidental desde então. Uma pena que os tokusatu originais não cheguem mais até nós, graças à incapacidade do público norte-americano (ou mais provável, dos produtores) em aceitar atores não-ocidentais em papéis principais.

Se hoje o que mais rende blockbusters para Hollywood é a nostalgia e os filmes de super-heróis, nada mais óbvio do que um reboot cinematográfico da franquia. Power Rangers, de Dean Israelite, é um filme que usa a nostalgia a seu favor, embora deslize – e muito – no roteiro e no tom. Como alguém que insiste em chamar seus bonequinhos de “action-figures“, o longa traz um ar de seriedade a algo que deveria, desde o início, ser destinado ao público infantil. Não há nada de errado nisso, e a seriedade que o filme se propõe, em determinados momentos, chega a atrapalhar o ritmo alucinante de uma aventura dos rangers.

A história começa com a geração anterior dos Power Rangers, lutando na Terra há 65 milhões de anos e, consequentemente, trazendo a extinção dos dinossauros. Somos apresentados a Zordon, o Ranger Vermelho de então e Rita Repulsa, a Ranger Verde que traiu seu grupo. Tudo de forma muito rápida para poder passar à próxima cena, onde somos apresentados a Jason, o esportista do colégio de Alameda dos Anjos, em uma situação bastante constrangedora ao tentar roubar uma vaca de madrugada pra pregar uma peça no time rival. A cena é bastante confusa e resulta em um acidente também confuso, além de uma piada infame. Assim, diferente da série original onde Jason era um exemplo a ser seguido, vemos o jovem jogador de futebol americano sendo punido pela brincadeira de mau-gosto e condenado à detenção escolar. Ali, Jason conhece outros “desajustados” como ele: Kimberly e Billy. Incrivelmente, as atuações dos atores estão bem além do que normalmente se espera de um filme como esse, embora os diálogos soem muitas vezes um tanto forçado. Descobrimos que Billy possui um tipo de autismo e por isso tem dificuldade em entender piadas. A amizade entre eles começa a se formar e, logo, já estão na pedreira da cidade onde conhecem os outros dois futuros rangers (Trini e Zack) e encontram as moedas do poder. Adentrar a pedreira gera uma nova confusão, um novo acidente e, como consequência, o despertar dos poderes nos cinco adolescentes.

Interessante notar como elementos da série são introduzidos aos poucos no filme, ora dando novos significados e subvertendo o que já conhecemos, ora ajustando elementos absurdos a uma história mais realista, ou mesmo fazendo piadas com esses absurdos. Assim, temos uma pequena troca de etnias entre os personagens principais em relação à série, mas que foi bastante acertada – evitando conotações possivelmente racistas ou ofensivas. A pedreira, palco onde as batalhas  na série clássica eram magicamente transportadas, ganha um pano de fundo e uma conexão com a economia de Alameda dos Anjos, além de ser importante para o surgimento do vilão Goldar.

A história prossegue como um clássico filme de origem de super-heróis: os cinco aprendem a lidar com seus poderes e buscam conhecer sua origem e missão. A nave de Zordon é encontrada soterrada na pedreira, e ali os cinco são apresentados a seu mentor. Zordon é brilhantemente interpretado por Bryan Cranston, que já dublava personagens na série noventista e aqui ganha muito mais profundidade. O robozinho Alpha (Bill Hader), por outro lado, tem uma aparência horrível e movimentos simiescos que causam muita estranheza. Talvez ao se afastar demais do ridículo conceito original, a nova abordagem acabou piorando o personagem. Os jovens então passam por um treinamento intenso para aprenderem a “morphar” e os Power Rangers propriamente ditos demoram demais para aparecerem em cena. Contudo, há um ótimo desenvolvimento dos personagens e conhecemos um pouco da vida de cada um, com alguns dramas bastante envolventes e que, por alguns minutos, nos fazem esquecer que se trata de um filme de super-sentai!

Paralelo a isso, temos o retorno de Rita Repulsa, agora como uma terrível feiticeira em busca de ouro para aumentar seu poder. A atuação de Elizabeth Banks chega a surpreender em alguns momentos de forma razoavelmente assustadora. Na construção da vilã, muita coisa foi limada da série para caber melhor no formato de cinema. Assim, ao invés do séquito de monstros que a acompanhava no original, Rita está sozinha e contando apenas com seus poderes – entre eles, o de criar os “bonecos de massa”. Aliás, os bonecos de massa dessa versão cinematográfica estão muito além dos soldados capengas de outrora, todos feitos em CGI e representando uma ameaça real, como grandes golens de pedra dispostos a proteger sua ama com toda brutalidade necessária. Da mesma forma, Goldar é um golem de ouro gigante – daí a importância da pedreira na trama.

Os Power Rangers finalmente conseguem “morphar” e os vemos em apenas cerca de vinte minutos de tempo de tela. Porém, o terceiro ato é simplesmente recheado de fanservice, mas que funcionam. Desde a descoberta dos zords até a luta contra o monstro gigante, passando pelo tema clássico revigorado, tudo é empolgante e faz o espectador na casa dos trinta anos lembrar de como aquilo tudo era divertido na sua infância. Assim, o sentimento de nostalgia pode afetar a percepção da qualidade real do filme, e temos noção de que tudo parece muito melhor do que realmente é.

Entre boas atuações, diálogos fracos, mudanças de tom, reviravoltas na trama, bons e maus momentos, Power Rangers é um filme que incrivelmente não é ruim, e já teve sua sequência garantida – embora motivada pelas altas vendas de bonequinhos e não pela qualidade do longa. As cenas de lutas com os zords bebem da fonte de Transformers, e o surgimento do Megazord ao acaso soa forçado demais até para os padrões estabelecidos pelo roteiro. No fim das contas, o filme parece ser mais sobre a interação entre os personagens do que sobre os Power Rangers como heróis, e isso não é nem de longe um defeito. E a cena no meio dos créditos deixa a dica do que vem por aí na sequência ao citar um dos personagens favoritos dos fãs que ficou de fora do filme. É bem provável que nos próximos anos a fórmula seja usada até a exaustão, com mais sequências sendo lançadas enquanto estiverem vendendo brinquedos.

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