Crítica | Projeto Flórida

Enquanto as premiações mais tradicionais transbordam das mesmas histórias e da mesma fórmula higienizada, Projeto Flórida é a prova de que Sean Baker – diretor do incrível Tangerine –  é dono de um dos olhares mais preciosos para a Hollywood de hoje, trazendo sensibilidade, força e humanidade, o cineasta representa a quebra de convenções tão enraizadas no cinema americano.

No segundo longa do diretor, agora com uma produção maior, mas ainda modesta, acompanhamos Moonee (Brooklynn Prince), que mora com sua jovem mãe em um hotel nos arredores do Disney World, o lugar é humilde, esquecido e é nele que acompanhamos o cotidiano da menina, seja ajudando a mãe a vender perfumes ou brincando com seus amigos. Aos 6 anos, Moonee é conhecida por todos por criar problemas intermináveis para o gerente do hotel e moradores locais.

Contando a história pelo ponto de vista das crianças, Baker encontra o viés perfeito para todos os temas que aborda. Em frente aos olhos de suas pequenas personagens ele explora violência, pobreza, e tantas outras questões sociais, sem perder a sensibilidade em tamanha verossimilhança que injeta. O longa-metragem poderia ser sobre aquilo que carregamos de nossos pais, dos adultos, sobre o que vemos e reproduzimos, mas o diretor não se limita a isso quando por meio da tridimensionalidade de todas as personagens ele demonstra os dois lados de uma mesma moeda.

Com um texto de naturalidade ímpar, o diretor constrói realidade, tem consciência quase palpável das pessoas que retrata e consegue extrair presença de todo o elenco. A atriz que interpreta a mãe de Moonee, Bria Vinaite, foi descoberta no Instagram pelo cineasta e entrega um trabalho fenomenal, demonstrando as equivalências de sua personagem e deixando-a fora do comumente mastigado por aí, como fica claro em sua maneira de se expressar, explosiva, mas são nos olhos que ela vai revelando suas camadas. Já Willem Dafoe, provavelmente o único veterano no longa, consegue se desprender de suas feições caricatas e nas mãos de Baker se mistura no elenco, encarnando talvez o personagem mais humano do filme, pois ao mesmo tempo que acompanhamos suas obrigações como gerente do hotel, percebemos também sua empatia e carinho pelos moradores do local, uma atuação delicada e devidamente lembrada no Oscar desse ano.

Mas o maior triunfo do filme está em seu elenco infantil, nas cenas em que as crianças interagem é que fica claro o trabalho minucioso de Baker, os diálogos parecem improvisados de tão naturais e verdadeiros, sem qualquer economia no texto, o diretor rege seu elenco mirim com respeito e coerência. A escolha de posicionar a câmera na altura das crianças é um reflexo disso. Porém, a protagonista do longa e intérprete de Moonee, Prince, merece uma atenção maior, o que a garota faz está além, e percebe-se isso quando a atuação dela é tão fascinante ao ponto de ser além do comum até para uma atriz experiente. A garota é expressiva e carrega seu próprio carisma, seus gestos são tão infantis quanto calculados, suas reações são genuinamente críveis e sua atuação como um todo faz o filme como seu, se tornando a melhor performance feminina de 2017 e sua esnobação na temporada não é nada mais do que pura injustiça.

Mesmo sendo um longa de grandes performances e temáticas, Projeto Flórida não deixa de ser visualmente significativo, o uso de cores vivas e câmera na mão dão a identidade – e também o contraste – que o filme precisa, ainda mais contando a história de crianças pobres à margem da Disneylândia. Baker, então, entrega um trabalho ainda mais completo que seu projeto de estreia e faz dele o mais significativo do ano, tendo sucesso através de um olhar sensível sobre suas personagens e com o equilíbrio certo de delicadeza e impacto, com um estilo visual único ele traz o frescor de um novo cinema independente americano, um cinema humanizado.

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