Crítica | Projeto Gemini

Projeto Gemini é um projeto de blockbuster que reúne em si muitos projetos que a priori, não tem muito a ver uma com a outra. A primeira delas é a dificuldade pós As Aventuras de Pi que Ang Lee tem em emplacar um filme elogiável, a segunda tem Will Smith como protagonista, vivendo o assassino do governo americano e atirador de elite Henry Brogan (seus últimos produtos também não foram muito bem recebidos) e claro, a nova tecnologia em 3d, que promete entregar cenas de ação mais nítidas.

No Brasil, infelizmente o filme é exibido em 60 frames por segundo ao invés de 24, como é o usual, mas não consegue corresponder ao que a tecnologia nova pede. Com todos esses fatores, o projeto tenta parecer algo além do cinema de ação e aventura genéricos, mas esbarra em questões básicas. Já na gênese do filme, há uma estranha (e péssima) referencia involuntária. Lee faz as vezes de David Ayer e começa mostrando Smith preparando seu rifle para um tiro a distância como foi em Esquadrão Suicida, mas aqui as intenções são diferentes, Henry diferente de Floyd Lawton é um homem de escrúpulos, só mata bandidos e terroristas e a comando do governo. Mal sabe ele (ainda) que há mais semelhanças com o Pistoleiro do que a premissa prega.

A culpa do personagem é um bom aspecto, dá a ele humanidade e até um pouco de profundidade, pois mostra ele como um sujeito que tem problemas em aceitar sua condição, pesando é claro as mais de setenta mortes que já cometeu. Evidentemente que há uma conspiração em torno do personagem principal, que passa a ser alvo de perseguição de seus antigos superiores.

As ideia do roteiro de Billy Ray, Darren Lemke e David Benioff (sim, o mesmo de GOT) são boas, mas a mão pesada do diretor e a quantidade enorme de coincidências e relações artificiais pesam contra o filme. A união dele com Danny Zakarweski, personagem de Mary Elizabeth Winstead não parece realista, tanto na rivalidade quanto na parceria dos dois.  Os demais personagens secundários aparecem e desaparecem com uma conveniência monstruosa, e alem disso, ainda se apela para um clichê que já era batido nos quadrinhos e cinema dos anos 90, e que hoje, é ainda mais obvio e raso, a questão da clonagem.

A exibição em 60 frames demora a acostumar o olho, mas tirando esse inconveniente, a violência e as sequencias de ação são bem legais. Lee emula bem o estilo de Paul Greengrass e mistura com elementos dos filmes de David Leitch e Chad Stahelski (De Volta ao Jogo, Hobbs e Shaw, Atômica e John Wick 3), ainda que não tenha o mesmo brilhantismo, até porque a maioria das falas são baseadas em frases de efeito, e diferente das fitas de ação da dupla de diretores citadas, esse é um produto audacioso, que mira a alta ficção científica, sem jamais alcançá-la.

O Gemini que está no título é um grupo paramilitar estranho, comandado pelo vilão que Clive Owen vive, o senhor Clay Varris, e impressionantemente os agentes americanos super bem treinados acham estranho que ele e sua equipe lance mão de clones, mesmo que uma variação da palavra “gêmeo” sempre estivesse na alcunha do grupo, desde os anos noventa. Aliás, o fato dos heróis demoraram a chegar a conclusão de que o homem que os persegue ser de fato clone do personagem principal não faz qualquer sentido, e os faz parecer burros.

Ao menos, as perseguições de carro são alucinantes, bem construídas e encaixadas. Há também uma preocupação bem moderna, de fazer com que as incursões dos personagens pareçam verossímeis, mas até esses momentos são cortados pela artificialidade que impera em toda historia, com a presença de um boneco digital que não parece nada realista. A tecnologia de rejuvenescimento e de dublê digital é fraquíssima nesses combates, e piora demais no final, quando ocorre o epílogo.

As ideias que permeiam Projeto Gemini misturam a pretensão de soar tecnologicamente na vanguarda, com a utilização de um tema já bem gasto que é a questão da clonagem, assusta como ainda se aposta nesse filão, assim como também surpreende que o longa tenha tantas semelhanças com Star Wars: Episódio I, A Ameaça Fantasma, no sentido de ser um filme que tenta parecer avançado visual e tecnologicamente e com fragilidades de concepção textual, com a pequena diferença de que Will Smith parece acreditar no filme, enquanto todo o resto da produção só parece querer entregar um produto puramente comercial.

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