Crítica | Quando Desceram as Trevas

Estrelando Ray Miland, que vive Stephen Neale, Quando Desceram as Trevas começa com um relógio badalando, e uma música sensacionalista que evoca o suspense que permearia o pouco menos de 90 minutos de exibição desta obra lançada em 1944, ainda com a Segunda Guerra ocorrendo, e se valendo desse cenário para apresentar uma trama cheia de paranoias, flertes com espionagem e comentários sobre o mundo em ebulição, pondo nazismo e outras ideologias em contraponto.

O filme em preto e branco prima pelo mistério, mostra personagens letárgicos, que demoram a tomar qualquer ação, que se movem vagarosamente mesmo quando lidam com terceiros, possivelmente em atenção aos estranhos e maniqueístas tempos de perseguição a quem pensasse ou fosse visualmente diferente dos poderosos. Essa letargia se vê principalmente no personagem de Miland, que é um sujeito de passado misterioso e que muito aos poucos vai se desenrolando.

As primeiras cenas de Neale mostram a sua intimidade, quando está parado dentro de uma casa. Já se nota a diferença dele para os ditos “normais”. Antes mesmo do filme apresentar seus plots de falsas acusações de assassinato para o sujeito, é como se a estranheza fosse o norte do roteiro Selton I. Miller escreveu para que o austríaco Fritz Lang dirigisse. Certamente esse é o mais desconfiado filme dessa fase que o diretor de Metropolis conduziu até então, não é tão explicito quanto Os Carrascos Também Morrem ou O Homem que quis Matar Hitler, mas mostra o mesmo viés condenatório dos extremistas a direita.

Neale ficou internado durante um bom tempo, em um hospício, graças a acusação de ter assassinado sua esposa. O retorno a sociedade, que deveria ser tranqüilo acaba não sendo, ele se vê invadido por pensamento, entre eles, pensamentos suicidas. Ao tentar voltar a normalidade, ele se vê no meio de uma estranha trama, em um circulo interno que remete a estranhas conspirações e a cultos de seitas igualmente bizarras,  onde ocorre um assassinato e por conta de seu passado, ele é acusado de ser o homicida. Até esse aspecto serve de crítica a sociedade, que pre julga o cidadão sem qualquer prova de culpa ou algo que o valha.

Entre tentativas de fuga do estado depressivo e melancólico que o sujeito está, moram tentativas de viver uma vida normal, e um flerte que faz com uma bela moça, ele visita um homem já idoso, e lá ele tem contato com um estranho livro, Psicologia do Nazismo, do Doutor Forrester. A partir dali ele passa a pensar em sua própria  situação psicológica, e na conversa com a moça surge uma inocente (e nonsense) conversa sobre espionagem dos nazistas.

Neale é um personagem simbólico, fruto de seu tempo, acometido pela paranoia típica dos tempos bélicos. É o perfeito exemplo do homem comum que se vê  confuso pelos tempos difíceis e que quase sucumbe ao discurso conveniente e cheios de respostas prontas que provém da fala fascista. Seu drama se encaixa bem na dificuldade que a opinião pública mundial sofreu durante a ascensão do Eixo, e mostra de maneira até um pouco didática como funcionava a cabeça da maioria das pessoas. A influencia nefasta dos que seguiam as ordens do III Reich causava furor na mente do cidadão comum, e deixava o mesmo num estado de alerta tão intenso que qualquer mínima pulsão gerava a sensação e loucura e a vontade de não existir.

O nome original de Quando Desceram as Trevas é Ministry of Fear, e a tradução literal certamente encaixaria bem, não só com toda a trama de espionagem do filme, mas também com as representações  por ele levantadas, e com o estado mental geral do planeta naquela época, dos filmes que Lang conduziu no esforço anti guerra esse talvez seja o mais diferenciado e inusual, falando de maneira profunda sobre os malefícios do fascismo mas não de uma maneira obvia ou meramente panfletaria, e sim bem emocionante e tocante, mesmo que lance mão de velhos clichês românticos para atrair um público mais universal.

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