[Crítica] Quando Eu Era Vivo

A despeito de toda a discussão sobre a produção de filmes de terror no Brasil, Marco Dutra constrói seu novo filme, Quando eu era vivo, de maneira bem elaborada, a começar por um vídeo caseiro que se vale de easter eggs interessantes. O vídeo, protagonizado por uma personagem mirim que faz a gravação em uma câmera super 8, remete a lendas urbanas conhecidas, como a do malfadado boneco do Fofão, que segundo a sabedoria popular, continha em seu interior uma adaga para rituais satânicos. A sessão de créditos que inicia o filme com uma trilha de piano ao fundo, destaca um elenco incomum, ao mesmo tempo que insere o espectador em sua curiosa trama, baseada no livro A arte de produzir efeito sem causa, de Lourenço Mutarelli.

Os passos largos e o andar vagaroso marcam o desgosto de José Marques Júnior (Marat Descartes) ao voltar a viver na casa dos pais. Em seu semblante, já se nota um humor que beira a depressão, motivado pelo casamento fracassado e por sua condição de desempregado. Ao chegar, Júnior é recebido por seu pai, Zé Marques Sênior (Antonio Fagundes), que tenta ser positivo a todo custo, evitando qualquer assunto embaraçoso. A distância entre os dois é notada nos diálogos pouco profundos, que tangenciam apenas atividades corriqueiras e banalidades a respeito das reformas no prédio e na casa.

Na casa de seu pai, Júnior observa o tempo passar sem qualquer entusiasmo, até que conhece a inquilina Bruna, uma estudante de música vivida por Sandy Leah. Estonteado por sua beleza, ele dá vazão a algumas fantasias sexuais, intercaladas por sonhos de retorno a sua infância. Acordar na sala de seu pai o faz perceber o enorme peso da rotina em sua vida, o que o impulsiona a buscar ansiosamente qualquer coisa que ocupe sua mente. O vazio de seu pensamento e de sua alma fazem dele um hospedeiro ideal para a obsessão que se apresenta quando resolve explorar o quartinho que guarda toda a velharia de sua família.  Motivado por seu novo objetivo, Júnior ignora o pedido de seu pai para que ele não mexa no quarto, mergulhando no mar de lembranças de seu irmão e sua mãe, que não estão mais presentes em sua vida.

Logo,  o personagem encontra uma fita de 1985-86 com cenas de recordações familiares que chamam sua atenção, como um misterioso ritual realizado por sua mãe, envolvendo Júnior e o irmão quando crianças. Remexer no passado e nas lembranças da mãe traz alguns incômodos na relação com seu pai, que se recusa a lembrar da esposa e busca dar um novo rumo a sua própria vida, sugerindo ao filho que faça o mesmo.

Algo muito complicado parece ter acontecido no passado da família, uma situação misteriosa e traumática que dividiu os seus membros e os fez ficarem ainda mais distantes com o passar dos anos. Júnior começa, então, a  apresentar sintomas de uma doença de origem misteriosa, com febre e uma perene dor de cabeça, que remetem diretamente aos vídeos em que sua mãe fazia moldes de gesso das cabeças dos filhos, sob o pretexto de obter boas vibrações. Segundo o pai, essas eram práticas de ocultismo, que não o incomodavam propriamente, mas que teriam levado a esposa à loucura.

Em sua busca obsessiva, o protagonista encontra uma partitura antiga que entrega a Bruna. A música, ao ser entoada, produz em Júnior uma reação estranha, uma contorção corporal epiléptica, originada no mundo espiritual. A partir desse momento, ele muda sua postura e começa a agir de modo estranho. O mistério e ambiguidade de suas ações, o fazem questionar qual seria a real origem de seu novo comportamento, uma possessão sobrenatural ou um problema de ordem mental.

Isso aguça ainda mais a curiosidade de Júnior e Bruna, que passam a explorar o passado e a música da falecida matriarca. Ele começa, então, a agir de modo ainda mais estranho, refutando qualquer aproximação que ameaçasse a memória de sua mãe ou de seu irmão, internado em um sanatório. Até seu pai é obrigado a tratá-lo como uma criança, colocando-o de castigo após suas reações violentas.

Quando Eu Era Vivo consegue reunir elementos comuns a filmes estrangeiros do gênero, como os sacrifícios profanos, tocando em questões profundas, sem abrir mão da brasilidade. O modo como Marco Dutra conduz a trama é interessantíssimo, conseguindo equilibrar o tédio apático da vida decadente de um divorciado, com o grotesco terror de histórias enterradas no passado.

A atuação dos atores escalados é delicada e proporciona maior afinidade com cada figura da trama. Dessa forma, Dutra sustenta cenas díspares de modo harmonioso e consegue garantir momentos de medo e pavor sem quebrar a empatia do espectador pelos personagens. As cores que marcam o tom desbotado dos tecidos na fotografia do filme, e o enredo macabro, mostram algo muito além do costumeiramente encontrado no mercado de filmes de terror, o que faz da película,  uma obra especial dentro do gênero.