Cinema

[Crítica] Quase Memória

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Quase Memória 1

Filme de proposta ensaística, Quase Memória conta a história de Carlos, um jornalista que recebe um pacote estranho, em sua casa, e passa a explorá-lo. Antes de descobrir o que há na encomenda, o personagem percebe um homem mais velho, que é na verdade, ele mesmo. As duas versões são vividas por Charles Frick e Tony Ramos, e a contraparte idosa tem um claro problema de memória, o que influi diretamente em seu ofício, e faz ambos tentarem recordar os momentos nostálgicos das gerações anteriores.

As lembranças tencionam chegar a uma poesia, que põe em cheque todo o repertório de seu diretor Ruy Guerra, que reinventa os flashback em formatos extremamente coloridos, protagonizados pelo pai de Carlos, o senhor Ernesto (João Miguel), em uma parcela da história que faz discutir bastante política, baseado principalmente na época da ditadura militar dos anos sessenta. Mesmo com todos os recordatórios, a memória do homem velho segue falhando.

Quase Memória 3

Guerra adapta o texto do jornalista Ernesto Cony Filho, mas a transposição não é feita a um modo sério. A abordagem com humor teatral passa do tom na maioria das vezes, chegando ao ponto de irritar profundamente seu público sempre que João Miguel aparece diante das câmeras – fator que ocorre inúmeras vezes dentro dos noventa e cinco minutos de duração.

O excesso de canastrice faz as situações dramáticas perderem força, falhando no papel de parecer um retrato da história, mesmo que tal recorte seja absolutamente parcial. Outro problema é a pouca exigência de seu ator principal, uma vez que Ramos quase não tem momentos onde sua dramaturgia seja realmente posta a prova, ao contrário, sobrando momentos onde qualquer artista genérico poderia realizar seu papel.

Os momentos finais são os mais emocionantes, mas nada que justifique todo o entorno pitoresco e risível de Quase Memória. As emoções vividas pelo protagonista, somente nos minutos finais ajudam a relembrar o quão desperdiçado foi o seu talento durante o restante da fita, e o quão frívolo soou o resultado final do exercício de Guerra, que tenciona muito mas entrega pouco.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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