Cinema

Crítica | Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto

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Bodes em cima de árvores – em Marrocos qualquer coisa pode acontecer – e é com essa sentença nonsense e completamente insana que a película de Gastón Duprat e Mariano Cohn começa. Querida Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo é um de exercício surrealismo certeiro, ufano e muito competente. Flerta com um realismo fantástico e apresenta um universo próprio.

Baseado no conto homônimo do escritor argentino Alberto Laiseca, o roteiro conta a história de um sujeito ordinário – Ernesto, personificado por Emilio Disi – que vê a possibilidade de voltar no tempo e reaver sua juventude, mas com a mente envelhecida que tem naquele momento. A forma como ele “retrocede” é através do poder de um sujeito atingido por um raio – Eusebio Poncela - que ganhou poderes de um mini-deus (ou mini-diabo de acordo com a preferência do público). O Imortal em questão tem poderes telepáticos, e consegue controlar as ações dos humanos em volta de Ernesto, e em determinados momentos, ele veste a máscara de mentor e inspira o protagonista.

O filme traz metáforas interessantes, como a extrapolação da vida real e retorno às memórias, revivendo as boas e más sensações vividas pelo homem, mas também toca em temas menos “açucarados”, como tentativas fracassadas de redenção – quando Ernesto percebe isso, cede aos seus reais desejos – fama, dinheiro e mulheres. Daí em diante começa um show de horrores, com o protagonista se valendo de seu conhecimento do futuro para conseguir lucro próprio, mas quase nunca com êxito.

“Meu pai que sabia das coisas, dizia que a vida é uma torta de merda, e que cada dia, temos que comer um pedaço!”

A ótica exposta pode parecer pessimista num primeiro momento, mas analisando de forma atenta, o espectador constatará que não é. A história é de um humor estúpido, às vezes, mas absurdamente fino e cruel em outros. Um recurso interessantíssimo é a narração, ora feita por Ernesto, ora por Alberto Laiseca, o que garante um caráter metalinguístico e raro. As tiradas e os diálogos são um dos pontos fortes também, como este: “O desgraçado (Ernesto) acredita na justiça, como se morasse na Suíça, pobrezinho!” – é verborrágico em alguns pontos e completamente silencioso em outros, e ainda assim, bastante equilibrado e comedido.

Querida Vou Comprar Cigarros e Já Volto é uma comédia sobre apatia e a dificuldade de se quebrar a rotina, utilizando-se do conceito de multiverso para provar seu ponto. É uma crítica ao tédio e à mediocridade, leva o conceito de Deus Ex Machina a uma história ordinária e despreocupada em passar uma mensagem profunda, o que não é demérito algum.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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