Crítica | Raiva

Antes mesmo de qualquer explicação, o filme de Sérgio Tréfaut começa com um assassinato envolvendo seu protagonista, um homem de chapéu e sobretudo preto segurando uma carabina antiga e matando algumas pessoas. Raiva é baseado em Seara de Vento de Manuel da Fonseca e mostra uma família sem recursos, e que recai sobre Palma, personagem de Hugo Bentes, a tarefa de tentar sustentar os familiares, ainda que não tenha trabalho.

Tréfaut traz à luz um western contemplativo, em preto e branco, e que fala sobre necessidades básicas. A busca de Palma, após o início acachapante é basicamente por dinheiro. Nesse ponto se percebe o desespero de toda a família, e o foco narrativo passa a ser nas lamurias e lamentações dos parentes, que acreditam que morrerão caso um milagre não aconteça, e esse prospecto não está muito longe de ser real.

Apesar da ausência de cor o cineasta consegue captar bem as paisagens de Alentejo, as áreas desérticas que massificam a sensação de desolação, seja da fome que se alastra como o vento ou os assassinatos que acontecem quando o sol deixa aquelas planícies. Tanto a escassez quanto esse conjunto de atos violentos são só algumas das mostras de como o Estado simplesmente ignora o cidadão do interior, não há qualquer menção de ação do poder público.

A denúncia que o diretor luso-brasileiro tenta estabelecer evoca o emocional, pois é difícil assistir o drama pelo qual passa a família de Palma sem sentir ao menos algum desgosto, mas também é pragmático e até um pouco cínico em seu roteiro, ao citar as forças mafiosas que habitam o interior, representadas pela figura de Elias Sobral (Diogo Dória). Raiva é um filme contemplativo mas que não tem medo de escolher um lado político, criticando veementemente a ignorância de forças políticas às ações de gangsters, e obviamente, ataca a falta de assistencialismo a essas família.

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