Crítica | Rambo: Programado Para Matar

Se analisado de maneira séria e sóbria, o nome brasileiro para First Blood não poderia ser mais injusto. O longa, de Ted Kotcheff, usa a alcunha de seu protagonista, unido a um subtítulo que não faz jus a vida que o veterano de guerra tenta levar, pois Rambo: Programado Para Matar é na verdade um clássico anti guerra, que reflete sobre o modo irresponsável e inconsequente que os Estados Unidos tratava os que lutavam seus conflitos. Essa é a ideia por trás também do livro de David Morell, que via seu personagem se afastar cada vez mais do seu cerne com o passar das continuações.

John Rambo visita uma cidade interiorana, com um sorriso no rosto, a espera de encontrar um velho amigo. O tal companheiro havia lutado com ele, no Vietnã, e ao se aproximar de lá, descobre que o mesmo pereceu, vítima de  câncer, em mais um eco da batalha na Ásia, já  foi o gás laranja que o adoeceu. Sem rumo, ele passa perto de Gateway, um vilarejo provinciano, onde ele encontra Will Teasle (Brian Dennehy), um xerife que aparentemente é simpático e inofensivo, mas que o trata mal gratuitamente e obriga a sair do lugar.

É curioso como os elementos técnicos fortificam a ideia de não pertencimento e inadequação pelo qual passa John. A musica de Jerry Goldsmith manipula um pouco, mas dá bem o tom de melancolia que o ex-soldado tem, ao perceber que mesmo tendo arriscado sua vida, mesmo sofrendo e perdendo companheiros, ainda é mal visto e mal recebido pela nação que jurou proteger. A fotografia que Andrew Laszlo apresenta também fortifica o aspecto depressivo da fita, seu registro harmoniza bem os trajes em cores não vivas de Rambo, além de encaixar bem o cenário bucólico de cidade pequena e conservadora.

A vitima do filme certamente é o personagem título, não só pelos motivos óbvios da ingratidão dos cidadãos que não sabem lidar com quem só obedecia ordens em uma guerra tão suja quanto foi o Vietnã. Todo o processo de aprisionamento do homem, que deveria ser simples, serve de gatilhos para seus traumas, para lembrar dos momentos de tortura e de privações no Vietnã, assim também faz ele retirar da jaula o animal acuado que esteve adormecido até então.

Por mais que seja conhecido como um herói de ação, o Rambo de Sylvester Stallone e Kotcheff é um personagem trágico, que não quer guerra, que odeia a violência, mas que responde a agressividade com um instinto de sobrevivência atroz. No desespero, John rouba, utiliza uma moto como meio de transporte de fuga, e para despistar seus algozes, vai para a lama, em uma metáfora representativa e bem óbvia da onde ele se sente seguro, no meio da lama, nos lugares mais baixos e no habitat de animais e não de humanos. A selvageria combina mais com seu estado de espírito atual, e lhe serve bem mais que a suposta civilização de Gateway e dos seus cidadãos.

Quando os policiais descem ao seu “nível”, se instala um inferno. Eles que se achavam os maiores predadores possíveis, e invencíveis, se deparam com um homem sem qualquer escrúpulo, violento e disposto a matar para retribuir a violência que sofreu.  Sua programação não é assassina e sim de sobrevivência, tanto que a fatalidade única e comprovada que ocorre na floresta – há um sujeito que cai de uma janela no começo do filme ainda na cidade, mas não se garante que o mesmo morreu – acontece por erro do policial, que aliás, é o mais canalha e abusador dentre as autoridades policiais locais.

Com quase uma hora de filme, há o advento de um personagem do passado de John. Vem a ser o Coronel Trautman, personagem do veterano Richard Crenna, de filmes como Montanhas Ardentes e Perigo no Espaço (ou Fogo no Céu). Ele intervém após ver a repercussão na televisão dos atos de seu pupilo, e percebe, mesmo sem conhecer os locais, que se ele nada fizer, certamente seu subordinado matará a todos. Mesmo sendo um personagem canastrão e bidimensional, se nota uma certa complexidade no que ele fala, e uma real preocupação com o soldado, tanto que ele ao chamar seu aluno, faz questão de relembrar todos os nomes do seu esquadrão.

É claro que o que fica marcado são as frases de efeito de Trautman, como quando seu conselho é de que comprem muitos caixões e sacos de corpos, mas a real relação entre os dois é a de um pai que quer o melhor para o seu filho, e esses são de uma guerra perdida, que não terminou para muitos, para Rambo obviamente, mas também para o coronel, que vai até o “filho adotivo” suprir sua carência parental e cumprir sua responsabilidade moral de educar seus soldados.

Os atos finais do exercito de um homem só envolvem a cidade, que foi evacuada, e se tornou o lugar onde Rambo e Teasle. A incompreensão pelo qual ele passa finalmente o atinge emocionalmente, claro, isso só é devidamente desenvolvido após o encontro pessoal entre ele e seu mentor. As emoções reprimidas finalmente vem à tona, e ele se desequilibra, chora e desespera, em uma cena que só não é mais forte pela falta de talento dramático de Sly. Não fosse por esse momento, sua atuação sairia impecável, mas claramente não há como culpá-lo por isso, pois apesar de ser produtor desta obra, e apesar de ter mexido em seu roteiro, todo o restante do filme é complexo, violento, visceral e triste, dado que ele não tem qualquer otimismo em seu desfecho.

Há um final alternativo (até bem fácil de encontrar pela internet, dado que foi até gravado e finalizado) onde Rambo se suicida na frente de Trautman, utilizando a arma de seu amigo. Esse desfecho obviamente faria mais sentido, mas deixar John Rambo vivo é uma atitude que faz repensar muito mais, no intuito de tentar entender como conviver com os que cometeram assassinatos em nome de uma nação pretensamente soberana, e como reinserir eles de volta  ao quadro social comum. O homem perturbado morrendo seria uma solução muito fácil, e definitivamente o roteiro de Rambo: Programado Para Matar não é simplista, apesar de exalar simplicidade, contendo complexidade e bastante crítica ao modo de viver do estadunidense.

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