Cinema

[Crítica] Real Beleza

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Real Beleza 1

Com um orçamento bastante baixo, mas munido de um elenco famoso, Jorge Furtado retorna ao cenário de longas-metragens de ficção após o interessante Mercado de Notícias. Com o casal Vladimir Brichta e Adriana Esteves, traz à luz um filme que deveria ser uma ode a arte e a universalidade da beleza, mas que acaba por valorizar conceitos familiares, ainda que por vias tortas.

Real Beleza se passa no estado do Rio Grande do Sul, cenário comum aos bons filmes de Furtado, a exemplo de O Homem Que Copiava e tantos outros. Dessa vez, o foco não é a capital, e sim o interior. João (Brichta) é um fotógrafo que vive uma fase de decadência em sua carreira, algo apresentado já no início da fita através de uma das modelos que trabalham com ele. Uma sequência inicial começa muito bem, com um plano-sequência interessante, mas resulta em um momento esdrúxulo que revela um ataque de ego, cuja resposta imediata é um ímpeto de violência do artista

Assumindo seu papel de subalterno, João viaja pelas cidades pequenas caçando modelos em potencial até encontrar Maria (Vitória Strada), uma moça que vive em um lugar isolado, com seus pais. Sem opções e entediado, o fotógrafo se lança nesta jornada até encontrar Anitta (Esteves), que se entrega a ele de um modo, a seu ver, único.

Real Beleza 3

Entre uma relação carnal e outra, há enormes discussões a respeito da arte clássica e do conceito de beleza, que revelam alguns diálogos e discussões bastante interessantes, mas que se perdem em meio a uma produção sinuosa. Pedro (Francisco Cuoco) mostra-se uma persona em fase de declínio ainda mais agravante do que do personagem mais moço, graças a sua imagem que se deteriora cada vez mais, e a velhice que lhe causou cegueira e teimosia. Sentimentos como desapego, gratidão e cuidado se confundem, piorando o quadro quando o debate entre as posições ideológicas dos dois deixa prevalecer o conceito de que a imagem normalmente vence o conteúdo, apesar das ressalvas de Pedro.

A tentativa de fazer uma ode à beleza da arte é falha, especialmente em razão da fraqueza dos personagens secundários e da banalidade típica que está presente no roteiro. De positivo, há o argumento a respeito da invisibilidade do idoso, ainda que a abordagem da drama torne-se dúbia, já que, em quase todas as vezes que Cuoco encontra a lente de Furtado, há uma estranheza e enfoque em uma condição de senilidade extrema. Real Beleza tenta ser singelo, mas tropeça em um roteiro ainda mais pobre que o baixo orçamento utilizado em sua produção.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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