Cinema

[Crítica] Refém da Paixão

Compartilhar

labor-day-poster

O quinto longa-metragem de Jason Reitman tem uma temática um bocado diferente da sua filmografia. Juno, Amor Sem Escalas, Jovens Adultos e Obrigado por Fumar, apesar de não serem comédias, têm fortes pitadas de humor dentro de sua abordagem, mesmo quando é o drama que predomina. A tônica de Refém da Paixão é um pouco diferente, um pouco por este ser baseado no romance de Joyce Maynard (Labor Day, como o título original do filme). Henry Wheeler, é interpretado de início por Gattlin Griffith e "narrado" por Tobey Maguire.

A postura de Henry envolve proteger sua mãe, Adele (Kate Winslet), já que ele e toda a comunidade a enxerga como uma pessoa frágil após o recém-consumado divórcio, não tão comum à época, vide que a história se passa em 1987. Ao contrário dos outros, Henry a vê como uma mulher forte, mas que passa por uma crise, e tenta a seu modo infantil, suprir as necessidade maritais, mesmo sem ter consciência de como funciona um matrimônio. O menino busca suas soluções, mas tem sua trajetória interrompida de forma deveras entrópica pelo fugitivo Frank Chambers (Josh Brolin), que pede auxílio a ele, e que tem o clamor aceito por ele, a priori.

O desenrolar dos fatos a partir daí é pontuado pelas sensações dos personagens. O suor no rosto de Adele não demonstra só calor, mas também a dúvida e o incômodo que a situação de abrigar um foragido da justiça causa em sua (já antes) confusa e abalada mente. Até mais do que os sentimentos já citados, o suor faz referência a tensão sexual entre os envolvidos, motivada por sua vez pela postura do "sequestrador", atencioso e atento a fome que Adele sofre. A sensação que ele supre dela é dita pela própria, em um diálogo reflexivo, entre mãe e filho. O sexo não se trata só de secreções, e sim do toque entre os humanos e da necessidade de saciar esta vontade.

Apesar de ligado a marginalidade, a constituição do passado de Frank segue um mistério, em princípio, primeiro pela suas palavras de que corre na imprensa não é verdade e segundo por suas atitudes subservientes. Em poucos momentos isso é um problema, os únicos pontos inconvenientes são os que envolvem a possibilidade de Frank ser pego. A atitude de rato acuado fica mais evidente quando isto acontece. Ele é um homem bruto, mesmo quando não se mostra um sujeito insensível. A violência de sua alma é velada, escondida sobre uma capa de normalidade, não muito diferente do homem simples, claro, guardadas as devidas proporções, que utiliza a civilização para domar seu instinto de selvageria.

Aos poucos, Frank ganha o respeito e o espaço dentro da casa dos Wheeler. Os problemas de infra-estrutura da casa são resolvidos um a um, e ele ainda mostra uma ótima capacidade de adaptação, quando adversidades chegam ao seu leito. Aos poucos, os pecados passados do homem são mostrados, longe é claro da narração de Henry, tais cenas remetem às conversas particulares do inusitado casal, e são aceitas por Adele como parte de uma atitude impensada, juvenil e passional. Após Henry tomar consciência do que sua mãe faz com Frank, a dupla é quase sempre flagrada em momentos de pós-intimidade, em que a mãe usa trajes curtos, mostrando-se muito mais a vontade.

A cor que predomina na casa dos Wheeler é o marrom e diversas outras tonalidades átonas, que remetem àa melancolia e tristeza da vida da família, comumente resignada, a começar pela figura da matriarca. A insegurança de Adele é ligada a um terrível trauma do passado - que é paralelamente cortado pela possibilidade de trauma do menino, impingido pela misteriosa personagem que lhe presenteia com o primeiro beijo. A diferença entre a motivação dos personagens é que, no caso da mãe,  o temor é justificado por um fato vivido que a marcou, enquanto ao filho, resta apenas a triste sensação de ter dado cabo a possibilidade deles retornarem ao estágio de uma família comum.

Frank muda. Ele retorna a si, ao seu estado e ao visual que tinha antes do crime que teria cometido. Com o seu conjunto de planos ele ratifica a ideia de que a família era para si algo sagrado, acima de qualquer outra ação mundana. Todo o seu conjunto de ações visava proteger Adele e Henry, assim como ele tencionava fazer com a sua outra família.

Mesmo próximo ao final, quando a família está em processo de fuga, Adele ainda se sente presa ao seu passada e a antiga posição de refém de seus traumas e de suas inseguranças. Os zumbidos, característicos dos momentos de tensão ocorridos no começo do filme voltam à tona, quando ela se vê pressionada e temerária novamente.

Após a prisão de Frank, a primeira saída de Henry de seu lar e da confissão da figura paterna, arrependida por ter insistido pouco na própria felicidade, o rapaz finalmente retorna à ideia que sempre declarara ser importante, desde o início do filme. Seu futuro e seu ofício foram muito influenciados pela figura de Frank, que ele ajudou a manter longe de sua mãe. Afastar a única pessoa que a impedia de se isolar deixou ele culpado, ainda mais, devido a ingerência que este teve em seu caráter. A marca que o homem deixou em sua alma era indelével e inegável, e mesmo com toda a tragédia e tristeza, o perdão acabou por prevalecer, mesmo sobre as atitudes que fizeram com que todos fossem menos felizes, nos vinte e cinco anos que seguiram após o acontecido em 1987.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
Veja mais posts do Filipe
Compartilhar