[Crítica] Rocky Horror Picture Show

Após a abertura com uma boca enorme, pintada com um batom vermelho de tonalidade intensa cantando Science Fiction, Rocky Horror Picture Show começa mostrando um matrimônio, e já jogando os atores que seriam os transgressores dentro da história como os religiosos  sacerdotes que ministraram o casamento. Tim Curry era o padre, enquanto Richard O’Brien – que também era escritor do longa e compositor – é parte de um casal de fazendeiros como na pintura American Gothic, de Grant Wood. Antes mesmo da primeira música cantada pelos personagens já se estabelece uma inversão de valores, e claro, da jornada normativa do herói clássico.

O roteiro do diretor Jim Sharman e O’Brien estabelece como lugar comum uma cidade interiorana, onde o pacato e tedioso Brad Majors (Barry Bostwick) pede sua amada Janet Weiss (Susan Sarandon) em casamento, logo após a cerimônia. O argumento brinca com a noção conservadora de felicidade, mostrando que a ligação básica entre romance e bom mocismo normalmente esconde um argumento falacioso. As pouco mais de uma hora e meia de duração do show são dedicadas a desconstruir isso, e o chamado à aventura acontece quando o casal resolve visitar um antigo professor que era muito próximo de ambos.

No trajeto que fazem em uma noite chuvosa, o pneu do carro fura e eles não tem estepe. Eles vão então em direção de um castelo, que por sua vez é outra expectativa invertida se comparado ao universo normativo e conservador de Janet/Brad, já que o  visual do lugar onde eles buscam refúgio é um lugar fantasmagórico e gótico, parecida com a morada do Dr Viktor Frankenstein. O interior do local é mais subversivo ainda, já que lá vive um grupo de pessoas alegres, com vestes coloridas e chamativas, ainda que guardem semelhanças com o figurino de filmes de terror clássicos, como os movie monsters da Universal. A fala desses personagens normalmente mostra uma avidez por sexo e a libido como base da maioria das interações, diálogos esses acompanhados de músicas excelentes em melodia, letra e coreografias.. Outro fato curioso é o do criminologista (e narrador) Charles Gray, que apresenta um tutorial da dança, enquanto Brad e Janet tentam fugir, assustados.

O medo que a mocinha tem dos caseiros Riff Raff, sua irmã Magenta (Patrícia Quinn) e a groupie Columbia (Nell Campbell) é só um preambulo para a aparição da real estrela, não só da morada, mas também da história. É de Dr. Frank-N-Furter (Curry) o motivo de existir o filme. Após demonstrar suas origens, como visitante de outro planeta, e como ser capaz de criar vida, Frank assedia os seus visitantes, praticando uma sedução bissexual que em um primeiro momento soa abusiva, mas que aos poucos se torna recíproca, estabelecendo ali uma quebra de recalque sexual.

A partir desse choque há uma mudança radical de postura, em especial de Janet. O desempenho de Sarandon chega a ser quase tão brilhante quanto o de Curry, tanto musicalmente, já que ela alcança os melhores agudos entre o elenco, quanto em dramaturgia, já que ela consegue transitar entre a boa moça e uma mulher fatal e repleta de libido, que finalmente alcança seu ápice sexual e se permite viver sem amarras.

Por ter uma libido ativa e quase impossível de controlar, os naturais da Transilvânia passam a discutir seus papéis sexuais o tempo inteiro, não só dando vazão a temática homo afetiva, mas também desmistificando o paradigma do amor livre e poligâmico, mostrando como algo que pode esconder sentimentos egoístas e mesquinhos, como os que movem Frank. Sua postura de descartar seus parceiros passa a ser duramente criticada, e sua resposta é a de transformar em pedra todos que se opõem a sua vontade.

Mesmo após as mostras de ingratidão e egocentrismo, Furter é capaz de causar em seus prisioneiros um transe sexual, somente interrompido por seus conterrâneos, que o buscam, deixando claro que apesar do texto transgressor, a lei da semeadura vale também nesse universo. A despedida do protagonista é emotiva e piegas, como é comum entre os terráqueos, e as referências a Crepúsculo dos Deuses denuncia a referência de uma história que busca mostrar uma estrela que brilhou intensamente, mas que estava em franca decadência. A ousadia de Rocky Horror Picture Show está o todo, de dar vazão a um espectro sexual visto como marginal e de não fazer concessões a qualquer parcela do público mais conservadora, sem também redimir os personagens falhos que, apesar de não serem necessariamente terráqueos, eram bastante humanos em suas manifestações de alma.

Acompanhe-nos pelo Twitter e Instagram, curta a fanpage Vortex Cultural no Facebook, e participe das discussões no nosso grupo no Facebook.