Cinema

[Crítica] Roger Waters - The Wall

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Roger Waters - The Wall - poster

O álbum The Wall lançado pelo Pink Floyd dava continuidade à tendência de álbuns conceituais da banda de rock progressivo e se tornou um dos pilares da banda, ainda hoje considerado um dos 100 melhores discos de todos os tempos tanto pela lista da Billboard quanto a da Rolling Stones. A ideia da obra surgiu na turnê In The Flash, quando Rogers Waters, sentindo uma desconexão com seu público, criou o conceito da parede que o separa de seus ouvintes, gerando, assim, este álbum dedicado a um traumático e metafórico trajeto de isolamento.

Desde seu lançamento em 1979, o álbum se transformou em uma turnê de sucesso, um disco ao vivo, uma animação idealizada por Alan Parker e um futuro musical da Broadway. Em 2010, Roger Waters, o mentor por trás do álbum, desenvolveu um novo show utilizando os recursos tecnológicos vigentes para produzir um espetáculo que desse vazão ao conceito de sua ópera rock e ampliasse seu significado em narrativas visuais que interagiam com as músicas. A turnê The Wall foi apresentada mundialmente nos três anos seguintes, com direito a quatro apresentações no Brasil em 2012.

Filmado em três shows produzidos especialmente para esta versão, além de um show com a participação do público, Roger Waters – The Wall é um espetáculo cuja magnitude é justificada por esta nova grande produção. Em 1990, Waters já havia feito uma gravação deste show em Berlim e, ao refilmá-lo anos depois, dialoga com a evolução da tecnologia a favor de sua história em um show definitivo.

O conceito teatral por detrás da obra se apresenta desde o início, antes da abertura do show. Uma parede cenográfica construída nas laterais no palco é o cenário que introduz o público a trajetória de Pink, o alter-ego de Waters no álbum conceitual. A metáfora narrativa sobre a evolução de um ser humano passando por fases de dor e perda inicialmente, a do pai morto no fronte de guerra, e delineando outras opressões como o protecionismo materno e o conflito das relações amorosas.

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A abertura do show, bem como início do álbum, é uma quebra de expectativa que rompe a barreira de um show tradicional. Um ditador entra em cena acompanhado de seu exército, informando que a diversão será diferente daquela imaginava pelo público. Não contente com a natural teatralidade do álbum, há a inclusão de uma pequena narrativa diluída durante o show sobre a perda de seu pai na guerra. A batalha é vista pelo viés social, da destruição causada nas famílias que perderam seu patriarca e o quanto isto causou marcas em uma geração. É este o marco zero de Pink que atravessa sua história. Nesta narrativa filmada exclusivamente para esta edição, Waters ruma a uma jornada pelo país até o local em que seu pai foi morto para prestar homenagens. Mesmo nesta composição simples, a viagem se adensa pela história do álbum se integrando a sua metáfora.

A parede é esta representação de insatisfações. Conforme cresce e é construída durante o espetáculo, se universaliza a partir da dor da personagem. O trauma é interno, simbólico, invisível mas ainda pulsa forte e adquire uma tônica crítica contra o imperialismo americano e da cultura de massa. O cenário é como personagem sempre mutável, graças às diversas projeções que estão expostas. Assim, a jornada de autoconhecimento de Pink é compartilhada com o público, a princípio, na destruição de todos os conceitos conhecidos para, após um surto que o divide entre juiz e acusado, destruir o isolamento da parede e voltar a se reintegrar.

Walters revoluciona ao compor um show em que o público perde o contato com a banda. Um convite à reflexão do motivo pelo qual há a parede em cena. Infelizmente, a edição lançada no país pela Paramount Pictures segue a tendência dos lançamentos de shows do país em que não há legendas em português nas canções, somente nas intervenções do cantor. Um erro de concepção da empresa ao ser incapaz de observar que, além de um show, a narrativa de The Wall possui uma história contada por suas letras. Dessa maneira, mesmo quem conhece o álbum de longa data, terá que rememorar as letras para conectá-las ao espetáculo. Um erro que poderia ser suprimido se se compreendesse que mais que um show, trata-se de um álbum-show conceitual.

Rogers Waters – The Wall foi lançado em DVD e Blu-Ray no país, sendo o último lançado em edição especial com luva, cards e um pôster. A edição apresenta poucos extras sobre bastidores e dois documentários expandindo a história inédita filmada especialmente para esta versão. Infelizmente, ainda falta um documentário que apresente toda a espantosa tecnologia por trás da produção, em que Waters eleva um incrível álbum a um conceito artístico múltiplo que transforma esta apresentação em uma das versões definitivas de The Wall.

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Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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