[Crítica] Sangue do Meu Sangue

Bloody of My Bloody 1

Ambientado no século XVII, quando da vivência de religiosos católicos, Sangue del Mio Sangue mistura elementos diversos típicos das discussões a respeito da Idade Média, como repressão sexual, sedução por elementos vocais e a ideia repressora da religião. Apesar de já na sinopse se prenunciar um elemento fantástico recorrente e popular atualmente, notam-se referências, desde o começo, a lendas antigas de sereias.

A jornada contra a blasfêmia e heresia ocorre por meio do padre Federico Mai (Alberto Bellochio), que vive em uma dicotomia terrível, tentando driblar seus impulsos sexuais, dando vazão a eles somente em situações limite. A discussão a respeito dos malefícios que a religião faz ao homem é comum dentro da filmografia do diretor Marco Bellocchio, como em A Hora da Religião e no mais antigo A Condenação. O diferencial está no estereótipo feminino de Benedetta (Lidiya Liberman), uma linda mulher condenada por uma questão não explícita por completo nos poucos minutos que lhe são dedicados em tela.

O mistério a respeito da origem dos maus atos de Benedetta e de sua sobrevivência apesar das inúmeras provas físicas pelas quais passa, não tem uma descoberta normativa e catedrática, ao contrário do que a mente torpe, simplista e viciada dos padres exige, e ela é encerrada em um caixão, após bastante tortura, permanecendo a questão aberta por séculos, até os dias atuais, onde se passa a segunda parte do filme, e onde um magnata russo quer comprar o monastério em que encerra o seu “sarcófago”, apresentando uma gama de personagens semelhantes aos vistos na primeira parte.

Claramente, há dos filmes distintos, reunidos em uma só fita. A naturalidade do debate anterior dá lugar a um pastiche engendrado de modo atrapalhado, visto o destempero até no conjunto de cores desta nova fase, saindo dos tons grafite e preto para estabelecer um figurino de cores gritantes misturados com tons pasteis.

Com a mudança do tempo, Bellocchio toca em pontos interessantes, como a evolução do pensamento da igreja em alguns pontos, bem como o estado ainda retrógrado da maioria esmagadora de seus atos. Sangue del Mio Sangue também consegue tocar em questões da cultura pop, de como o ideal de maldição mudou junto as plateias, e de como o excesso de informação ajudou a sepultar a crença em mitos do passado. Apesar de hermética, a proposta do diretor alcança seu êxito na maior parte dos pontos, mesmo que seu produto final não seja tão positivo quanto grande parte de sua clássica filmografia, ainda assim concentra ótimos ângulos, repletos de significados imagéticos profundos.