[Crítica] Se Beber, Não Case

hangover

Um filme pequeno, sem grandes pretensões que alcançou o posto de comédia censurada para maiores de 18 com maior bilheteria da história do cinema – algo em torno de 458 milhões de dólares. Foi responsável por alçar seu diretor Tod Phillips e o elenco principal ao estrelato. A comédia de erros aliada ao humor politicamente incorreto e sem frescuras garantem a graça para praticamente todos os públicos, mas analisar o sucesso de Se Beber Não Case somente por isso é simplificar o bom trabalho da produção.

O diferencial desta fita começa pelas filmagens in loco. Em tempos em que até séries de TV de baixo orçamento utilizam-se amplamente de CG, ver um filme com tamanha qualidade artesanal e sendo registrado nos cenários reais é no mínimo louvável. Poucas obras cinematográficas conseguiram capturar o clima e o espírito de Las Vegas como aqui, e isso empresta muita credibilidade à trama principal.

Logo no começo é mostrado o “bando de lobos” metidos num apuro absurdo, e este é o lugar comum do grupo: em meio à agitação, loucuras, bebedices, prostituição, vida desvairada. O espectador é convidado a mergulhar na história junto com os “heróis”.

Após acordar da ressaca, Stu – personagem de Ed Helms – é mostrado de frente por uma steadcam, imitando a sensação de tontura após uma noite de excessos, este é um ótimo recurso para mostrar como são os hábitos da trinca de protagonistas. A história explora basicamente a relação desse estranho grupo e como eles aprendem a viver suas vidas sem muito desprendimento moral.

Alan (Zach Galifianakis) é infantil, insano e algumas vezes até irracional, suas tiradas são a melhor coisa do filme: “Se masturbar no avião é mal visto graças ao 11 de Setembro, obrigado Bin Laden”, “Tigres adoram pimenta, mas odeiam canela.”, ou quando este encontra Chow, um personagem oriental que os ataca: “Pare de me bater, eu também odeio Godzilla, ele destrói tudo”. Seus hábitos, sua bolsa de Indiana Jones e trejeitos efeminados, além da clara falta de convívio social fazem dele um personagem riquíssimo, que foi incorporado a praticamente todos os papéis de Galifianakis. Phil (Bradley Cooper) é um professor casado e entediado, que busca uma noite memorável enquanto Stu vive sua vida mais ou menos, controlado por uma mulher que o destrata o tempo todo. Os três precisam de algo mais, principalmente a libertação de si mesmos. A química entre o elenco é o fator primordial para que a fórmula dê certo, Helms, Galifianakis e Cooper formam um time entrosado e tudo se encaixa graças a eles.

O conjunto de absurdos que acontecem no desenrolar da trama e suas desventuras tornam tudo ainda melhor, pois a empatia pelo trio é quase automática da parte de quem vê.  Se o espectador mais crítico forçar um pouco, dá até para achar semelhanças entre o filme e “Os Boas Vidas” de Federico Fellini, obviamente deixando de lado o estofo da película italiana. Ambos têm temas parecidos, explorando a boêmia como estilo de vida e fuga da realidade, por vezes cruel – e claro que o caráter e a mensagem final são completamente diferentes.

Próximo do final, Stu enfrenta seus fantasmas e tem uma atitude, demonstrando que após toda aventura, ele evoluiu. Os créditos finais com as fotos mostrando as lacunas perdidas devido à amnésia do grupo se consolida como um desfecho magnífico para a noite épica dos amigos.