Crítica | Sede de Viver

Dois mestres unindo-se por um sonho romantizado, o de se pintar com a câmera e seus ângulos abertos e generosos um mural sem molduras e em movimento com tudo de mais icônico, simbólico e indicial houvesse na nobreza a pulsar sóbria nesse punhado de frames cuja estrutura orgânica resulta na mais poética das diferentes encarnações que um filme pode ter, dependendo claro da visão de quem o comanda – neste caso, dupla. Sonho alcançado por meio da existência e resistência cinematográficas, no território da assimilação de uma história, singularmente falado, com a sua intrínseca composição visual – ou seja, celebrando a fusão entre a palavra dialogada e uma decupagem visual sublime que eleva este diálogo ao nível excepcional da pura e irrevogável linguagem cinematográfica (tão cara ao século XXI e meados do XX, devido as comparações com os triunfos irrebatíveis de outros mestres multifacetados de outrora não conseguirem quase nunca ser equiparados quiçá superados por boa parte da produção atual).

Um casamento muito perceptível este da alma com o corpo de um filme, algo planejado, desdobrado e sensível em praticamente todos os pequenos e grandes filmes de Vincente Minnelli e George Cukor (onde não há instante infinitesimal entre aspectos das suas crias que pudesse ser analisado apartadamente do todo), e que em Sede de Viver tal enlace é plenamente acentuado de uma forma contemporânea pelo uso magistral do cinemascope sendo articulado em um uníssono perfeito, e insubstituível por outros recursos, com as intenções dramáticas em torno das circunstâncias da vida e obra de um dos mais famosos artistas da humanidade, Vincent Van Gogh, no seu mais belo e poderoso ensaio biográfico filmado sobre o caos particular do pintor, dilemas e paixões avassaladoras.

Inspirados por uma contemplação visceral do que estava oculto por trás dos quadros do gênio espanhol, após uma longa e globalizada pesquisa já confirmada logo no início do filme (a MGM inclusive contou com a ajuda valiosa do amplo acervo do museu do MASP sobre o pintor, aferindo o máximo de fidelidade aos fatos), e guiados por sua maturidade profissional, Cukor e Minnelli desferiram suas peculiaridades adjacentes e entenderam de forma emblemática e invejável como adentrar no universo realista do homem e num momento seguinte, na ótica imaginativa do artista, a ponto de suas visões narratológicas e estéticas não poderem se distinguir mais, trazendo-as ao choque de resoluções para que a construção deste sentindo único e pulsante de Sede de Viver fosse continua e ininterruptamente conseguido, algo deveras raro no Cinema de hoje em dia, com grandes e caríssimos exemplares ao redor do mundo de beleza indiscutível, mas, quando não rasos, desequilibrados entre fatores que seus encenadores parecem majoritariamente alheios a suas circunstâncias mais profundas, para não dizer refinadas e/ou poéticas.

Ora, se o predomínio da linguagem cinematográfica em Sede de Viver debulha-se firme, e forte, nos domínios simbólicos da poesia para se registar como protagonista expressivo na espinha dorsal desse espetáculo elegante e romanesco de cores, luz e sombra donde se configura (na tela) as relações efêmeras de Van Gogh com o mundo e seus habitantes que ele tanto quisera imortalizar (nas suas próprias), há-se então presente o legado e o resgate, ainda nos anos 50, dos grandes poemas visuais fundamentais para a arte que lhes serve de palco. Contudo, não só se observa, mas sente-se a influência estilística dos filmes ainda preto-e-branco de Murnau, Ophüls e outros em inúmeras sequências de puro brilhantismo narrativo, e em inúmeros de seus planos também, tal quando o pintor entra numa mina de carvão, por motivos que não vêm a calhar nessa crítica, e se depara com trabalhadores escravizados, e ao interagir com eles num ambiente nada colorido ou urbanizado, detecta na miséria traços de humanidade coletiva tão puros e grandiosos naquela gente resistente que se tornam quase inviáveis de se retratar pela mixagem penosa de seus tubos de tinta.

Algo mostrado bem no começo da história, sendo proposital àquilo que se compreende como continuidade do filme, pois logo em seguida, Van Gogh já iniciaria seu questionamento existencial, aos poucos, sobre o poderio duradouro da arte que viveria para aprimorar. E finalmente, é essa pseudocrise existencial que o filme incorpora todo o tempo nas suas paletas, diálogos, figurinos, cenários, ou seja, em toda a sua exposição, gradativamente, como um dégradé de emoções e anseios de uma vida agitada perfeitamente bem traduzidas na linguagem do celuloide pela junção dos diretores de Cabaret e Minha Bela Dama, filmes bastante inferiores e muito mais famosos a nível de comparação que este. Mesmo assim, sob o ângulo apurado do linguístico, Sede de Viver carrega na sua completude uma veracidade e um peso artístico ultra potentes e muito além das capacidades do verbal e do pictórico, exaltando assim o Cinema e o delicado herói europeu aqui admirado, mas também investigado – não somente por seus quadros e comportamentos controversos, mas pela visão de mundo que absorveu da vida e pelas “cores” daquilo que lhe consumia, sempre de dentro para fora.

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