Crítica | Sem Escalas

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Liam Neeson (ou Lionélson, para os íntimos) é um caso curioso em Hollywood. Ele tornou-se um rosto conhecido ao construir sua carreira em papéis coadjuvantes, geralmente como um sábio mentor. Somente já beirando os sessenta anos ele encontrou seu espaço como protagonista, e vem meio que reprisando sempre o mesmo papel: o durão veterano, um tanto atormentado, mas chutador de bundas. Foi assim em Busca Implacável, Busca Implacável 2, Desconhecido, e A Perseguição. A prova de que a fórmula funciona – e que Neeson é muito bom em interpretar a si mesmo – é o mais recente item a ser adicionado a essa lista, o competente Sem Escalas.

Repetindo a parceria de Neeson com o diretor de Desconhecido, o espanhol Jaume Collet-Serra, Sem Escalas traz o clássico plot do “dia de trabalho no qual as coisas deram errado”. A bola da vez é o agente federal Bill Marks, especializado em embarcar disfarçado em voos e ficar de olho em potenciais problemas. Num belo dia ele começa a receber mensagens de texto de um incógnito criminoso, que exige 150 milhões de dólares a serem depositados numa conta específica, ou um passageiro morrerá a cada vinte minutos. Conforme as complicações vão aumentando, todos a bordo passam a ser suspeitos – inclusive o próprio Marks.

Quem teima em buscar originalidade em tudo que vê provavelmente deve passar longe de Sem Escalas. Clichês são a palavra de ordem aqui, começando pela própria ambientação. Como na maioria dos “filmes de avião”, não há tanta ação no sentido de movimento, adrenalina. As emoções vêm do suspense e da tensão, alimentados pelo cenário claustrofóbico. A sequência de assassinatos cometidos por uma figura oculta também segue a clássica cartilha de histórias detetivescas: por mais que o prazo seja anunciado, o modo como as mortes ocorrem leva o espectador a visualizar um gênio do crime por trás de tudo. Até mesmo o protagonista se encaixa num padrão, no caso o do herói cansado, desacreditado e falho (fumante e quase alcoólatra), mas que não se deixa abalar na hora de fazer o necessário para salvar o dia.

Os méritos do filme vêm da habilidade por parte dos envolvidos em fazer bom uso de todos os clichês, e da mistura deles retirar um honesto entretenimento. O clima de paranoia típico do pós-11 de setembro é bem construído por uma direção segura e um roteiro ágil e sem firulas. Collet-Serra trabalha com inquietos ângulos e movimentos de câmera, que “flagram” os passageiros em olhares e posturas duvidosos – ou apenas compreensivelmente preocupados, impossível de se ter certeza. Nessa linha, há uma mordaz ironia no fato do médico árabe parecer suspeito muito mais por conta do NOSSO olhar preconceituoso do que por qualquer coisa do filme em si.

Os personagens se tornam rasos, uma vez que a necessidade de se instalar a desconfiança geral demandou que pouco fosse revelado sobre eles. A definição de cada um se dá pela camada mais superficial: temos “o piloto”, “a aeromoça”, “o policial”, “o medroso”, “a garotinha”, “o babaca” e por aí vai. Outro grande nome do elenco, Julianne Moore vive a “desconhecida amigável” e, pouco exigida, faz um bom trabalho. Fãs de séries vão reconhecer Anson Mount (Hell on Wheels) e Shea Whigham (Boardwalk Empire). Além deles, a recém-oscarizada Lupita Nyong’o faz uma discretíssima ponta.

Se aproximando do final, o filme fraqueja é dá suas derrapadas. A revelação do vilão acontece de forma um tanto forçada, o que só piora quando ele faz um monólogo explicando suas verdadeiras razões. Além de simplistas e pouco críveis, os motivos alegados simplesmente não fazem o menor sentido, ao se analisar no mundo real tudo o que o governo americano fez e vem fazendo em nome da segurança contra o terrorismo. O filme foi fundamentado nesse contexto e soube usá-lo muito bem durante a maior parte do tempo, deixando a falha ainda mais inexplicável.

De qualquer forma, Sem Escalas cumpre o que promete e entrega um bom suspense de ação. Mantendo-se as expectativas baixas, a diversão está garantida, nem que seja somente para prestigiar o parça Lionélson.

Texto de autoria de Jackson Good.