Crítica | Sentimentos Que Curam

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Há alguns anos, o número de doenças psicoemocionais em meio a sociedade cresce cada vez mais, e até pouco tempo, eram vistas como fraquezas psicológicas, falhas de caráter, frustrações momentâneas e “frescuras”. Porém, as consequências de tais doenças têm sido cada vez mais evidenciadas, e passaram a ser vistas não só como uma enfermidade, mas como um verdadeiro problema, uma ameaça a vida.

O transtorno maníaco-depressivo, a bipolaridade, é uma das mais conhecidas, marcada pelas repentinas mudanças de estados de humor (variando nos níveis de intensidade, de frequência e de duração), com reações maiores do que os gatilhos, e flutuações sempre pendentes para comportamentos e atitudes negativas. Lançado no Festival de Sundance, é daqui que Sentimentos que Curam parte.

Na trama, um sensível e introspectivo Mark Ruffalo interpreta Cameron, um portador da bipolaridade que, após um surto, é obrigado a se afastar de Maggie (Zoe Saldana), sua mulher, e suas duas filhas Amelia e Faith, interpretadas pelas estreantes Imogene Wolodarsky e Ashley Aufderheide. Após tempos em uma clínica psiquiatrica, Cam retorna tentando se reconciliar com a família.

Quando Maggie resolve partir para uma outra cidade para estudar, as filhas do casal ficam com Cameron. A partir daqui as dificuldades que um pai bipolar tem para criar os filhos se tornam o foco do filme, assim como essas mesmas dificuldades o ajudam a enfrentar seus problemas. O filme marca a estréia da roteirista Maya Forbes (Monstros Vs. Alienigenas) na direção, que também assina o roteiro autobiográfico, com base na história de seu pai Donald Cameron Forbes.

Desde o início, o filme lida com graça e excentricidade com a doença de Cam. Forbes consegue criar um retrato afetuoso de seu pai, mas ao mesmo tempo, sincero, resvalando sobre os efeitos colaterais de seus remédios, o pouco conhecimento psiquiátrico da época e até as inúmeras discussões familiares, tudo sempre tratado com leveza graças ao clima “light” usado ao invés do dramalhão, abrindo uma porta para que os espectadores se aproximem do filme.

Além do foco afetivo, parte da leveza do longa se deve a caracterização da época “pé no freio” dos anos de 1970, logo após a loucura “sexo, drogas e rock and roll” da década passada. A reprodução dos vestuários e dos costumes, embalados por uma trilha sonora montada por nomes como George Harrinson e Tina Turner, além de composições de Theodore Shapiro, aumenta o teor emotivo e pessoal do filme, crescendo no sentido de acessibilidade e expandindo a identificação com o espectador.

Além da já mencionada atuação impecável de Ruffalo, vemos em tela uma surpreendetemente forte, porém delicada Zoe Saldana, que move céus e terra por sua família, demonstrando isso com sutileza, sem usar de demagogias ou clichês para dizer que tem algo a mostrar. Em contrapartida, as pequenas Imogene Wolodarsky e Ashley Aufderheide se tornam um destaque por si só, transmitindo toda uma naturalidade e um ar infantil de inocência.

Ainda que traga uma história simples de superação (ou quase isso) e de reencontro, Sentimentos que Curam é o tipo de filme que consegue cumprir exatamente o que promete, e apesar de previsível, emociona ao literalizar a ideia de que “a união faz a força”.

Texto de autoria de Matheus Mota.