Cinema

[Crítica] I Shot JFK: The Shocking Truth

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I Shot JFK

Movido por dois sentimentos, I Shot JFK é um documentário que se inicia de forma bifurcada: primeiro pela comoção geral da nação dos Estados Unidos da América ao ver seu político de marca maior ser brutalmente assassinado no alvorecer de seu mandato; e, claro, pela paranoia a respeito da autoria de sua execução. Robert Kiviat foi até a prisão para entrevistar James Earl Files, o acusado de lançar o tiro ao ar. Uma movimentação repleta de mistérios, mesmo na época da produção do filme.

O sotaque “White trash”, típico do Alabama, dá à narração dos fatos um cinismo atroz, involuntário ante a vontade do personagem investigado. James, de cabelos longos, apesar da notável calvície anunciada em sua fronte, permanece lúcido na prisão, falando de modo enérgico e prolixo, não temendo as câmeras ou seu inquiridos. A coleção de fatos que discursa é incrivelmente rica em detalhes, desde a estranha declaração sobre sua certidão de nascimento, que declarava que ele era morto ao nascer - em seu entender, uma represália do governo –, até o envolvimento do detetive Joe West.

As declarações de que Files já tinha total fundamento sobre a rotina e trajeto de John Kennedy vem de encontro à óbvia sensação do povo de que tudo foi orquestrado e planejado há tempos, por um grupo maior do que apenas um atirador. Logo, Files declara a participação de Lee Harvey Oswald, negando que o conhecia anteriormente, mas declarando que a rotina pré-assassinato tinha sido tratada por ele, inclusive, em conjunto com Oswald, visitando as locações e medindo as possibilidades de sucesso no tiro que viria de tão longe.

I Shot JFK 3

O envolvimento da máfia com as personas do mandatário Jack Ruby e do operador de campo Johnny Roselli, é dito sem qualquer reprimenda ou receio por parte do assassino confesso. O homem encarcerado conta tudo com uma riqueza de detalhes atroz, sem expressar qualquer arrependimento, já notado à época e agravado em frieza com o tempo. A única nuance é, ao declarar os seus próprios erros, pisar em restos de cigarros quando saiu dos locais suspeitos, fazendo dele um alvo fácil para a investigação.

O mérito principal de Kiviat não é como cineasta, uma vez que sua câmera pouco se move. Porém, seu talento como entrevistador e sua humildade em deixar seu personagem conduzir a fita possuem méritos, já que I Shot JFK só é digno de nota graças à visceralidade dos contos de James Files. A escolha das cenas de arquivo, que pontuariam cada um dos eventos históricos, oferece essência ao relato, que normalmente seria enfadonho, mas que, na realidade, prende completamente a atenção do espectador  nos noventa minutos de duração.

A lucidez e certeza de que estava certo fazem de Files um personagem ainda mais intrigante, já que seu forte código moral não o impediu de cometer a atrocidade que fez, e seu conservadorismo exacerbado também não o fez se arrepender, em seu relato. Na mentalidade do acusado, fazia o que era certo, levado – supostamente - por ordens superiores, sendo apenas um peão dentro do jogo que lhe foi proposto, tendo a si a única incumbência de cumprir uma difícil missão, que não poderia ser feita por mais ninguém. No seu entender, ele e Lee Oswald eram patriotas, servindo a sua nação do melhor modo que poderiam.

Ao comentar suas breves saídas da prisão, o entrevistado destaca a perseguição e algumas tentativas de assassinato que sofria dos policiais, até que uma delas o fez voltar a prisão, em sua opinião, só tendo a culpa amputada a si pelo fracasso da operação. James lamenta não poder conviver com seus filhos, e esse é o único remorso que sente por ter apertado o gatilho em JFK, já que a partir dali sua vida mudaria para sempre. A noção de que John era um mau homem não pertence ao seu pensamento, mas a dúvida não o atrapalha em nada no prosseguimento de sua vida prisional. O resultado final da fita exibe uma persona que se sente injustiçada e não gratificada pelos serviços que prestou. Files é parte da história estadunidense inegavelmente, e uma faceta pouquíssima explorada diante de toda a controvérsia que gerou. O formato do filme permite uma análise aprofundada e mais um capítulo da estranha relação entre forças armadas e governo dos EUA.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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