[Crítica] Sob Pressão (2016)

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A carreira de Andrucha Waddington se confunde demais com a de seus familiares. Seu cunhado Cláudio Torres também é diretor de cinema e tem tido êxitos maiores na grande tela, e seu irmão Ricardo Waddington é um conhecido condutor de programas globais. O novo produto longa-metragem de Andrucha possui identidade própria, mas reúne elementos das carreiras dos parentes citados, com um clima de thriller muito intenso e urgente com um cunho emocional como em Redentor e a estrutura narrativa de tantos seriados médicos como House M.D. e ER – Plantão Médico.

Sob Pressão possui também uma característica básica se comparado aos seus primos estrangeiros, uma vez que o drama do doutor Evandro (Júlio Andrade) reside na crua e precária situação de se tentar trabalhar em um hospital público brasileiro, agravado pela localidade de vizinhança com um morro que está em guerra entre tráfico e polícia. Evandro é um sujeito instável, que o tempo inteiro treme graças à enorme pressão psicológica que sofre, sendo mostrado mais tarde desdobramentos desse desequilíbrio emocional, denunciando inclusive a questão da auto medicação e dopagem auto induzida.

O roteiro de Renato Fagundes e Leandro Assis se pauta em absoluto no sensacionalismo e moralismo exacerbado, pesando a mão em alguns momentos chave, em especial ao mostrar o personagem de Thelmo Fernandes, o Capitão Botelho, que leva até os cirurgiões dois feridos, um traficante e um companheiro de farda, exigindo do médico atenção para o seu amigo. Ali é estabelecido que já há uma conturbada relação entre ambos, que vez por outra, possui interferência da administradora do local Ana Lúcia (Andréa Beltrão) e o experiente e fundador pela Unidade Vermelha Samuel (Stepan Nercerssian). Da parte dos mais pragmáticos, há o desejo por encerrar o corpo cirúrgico ali e é nessa tensão que trabalha o outro plot do filme.

Apesar do ótimo desempenho de um surpreendente Ícaro Silva, que executa o papel do Dr. Paulo, um jovem resoluto, competente e maduro bem diferente dos personagens mais famosos do ator e de uma participação interessante ainda que breve de Marjorie Estiano como a traumatizada Dra. Carolina, há um sério problema com clímax no filme, uma vez que os eventos de dificuldade grande se sobrepõe de maneira atropelada. A tentativa do texto é imitar no ritmo o estado débil de seu protagonista, mas a estrutura ao estilo telenovela mostra um plot multifocal em relação a personagens principais, uma vez que este não é uma biografia do personagem de Júlio Andrade não faz muito sentido justificar esse defeito com a pecha de narrativa estilística, ainda que o mote do livro baseado Sob Pressão A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro (de Márcio Maranhão em depoimento à Karla Monteiro) seja o de relato de um sujeito único.

Não há espaço para digerir o choque de cada evento em si, tornando até banais as mortes que ocorrem normalmente aos pacientes. As condições precárias financeiras contaminam inclusive a formação dos personagens pacientes, que são puros arquétipos o que é uma pena. Mesmo bos funcionários há poucas nuances, exceção a Paulo, Carolina, Evandro e mais um ou outro personagem secundário. As lições de moral e a repetição de ciclo ao final fazem lembrar a mediocridade do argumento, que não acompanha infelizmente o arrojo com que Waddington conduz boa parte das cenas, fazendo desse Sob Pressão um filme que carece de harmonia em contar seu próprio drama.