Crítica | Socorro, Virei Uma Garota!

De Leandro Neri, diretor acostumado a fazer programas de tv como o Caldeirão do Huck, Socorro, Virei Uma Garota se vale da popularidade recente do casal Victor Lamagolia, do Parafernalha e Thati Lopes, do Porta dos Fundos, para trazer uma adaptação brasileira de comédias clichês norte-americanas, envolvendo filmes onde adolescentes são vividos  por adultos beirando os 30 anos e filmes de trocas de corpos.

Lamoglia vive Julio, um garoto nerd, colegial, que sonha em ficar com Melina (Manu Gavassi), a garota mais popular da escola. Ele é melhor amigo de Cabeça (Leo Bahia), um nerd gordinho, estereotipado que gosta de Jornada nas Estrelas e que transpira clichês. Em comum entre os dois amigos inseparáveis, há o gosto pelas estrelas, herdado por Julio de sua  falecida mãe. Essa tentativa de emocionar, com uma perda familiar esbarra nos atalhos que o roteiro toma, ao mostrar o protagonista como o  excluído em todos os ambientes que está, em casa, por ser mais sensível, na escola por ser CDF e inteligente, e tudo piora, após uma noite de lual, em que ele faz um pedido a uma estrela cadente, para ser a pessoa mais popular da escola, retornando como uma gostosa patricinha, vivida por Lopes.

Este é quase uma versão infanto-juvenil de Se Eu Fosse Você, ainda que seja ainda mais apelativa e pueril. Não há complexidade, o roteiro de Paulo Cursino é bem raso, diferente do que foi bem apresentado em Divórcio, que aliás é um filme cuja premissa não é tão distante da vista aqui. Há uma quantidade enorme de piadas machistas, a maioria dos diálogos possuem ao menos uma noção ou fala sexista, beirando a homofobia em alguns pontos, ainda que seja mais leve nesse sentido.

O fato da família Martinez ser totalmente diferente e muito mais miserável unicamente por ter uma garota popular ali é misógino de um jeito que nem as globochanchadas mais populares eram. As versões que Nelson Freitas faz do pai de Julio/Julia são ridículas, apesar do interprete se esforçar para dar alguma profundidade para seu personagem, parecendo de fato um parente preocupado, esmero esse desperdiçado pelo fato de não ser nada crível que pessoas nessa idade estejam na escola.

O filme melhora um bocado quando Thati entra em cena, mas ainda assim é bem pouco. Há muitas piadas com hits musicais de Katy Perry e Harlem Shake, mostrando que o filme está preso em um humor no mínimo dez anos defasado, aparentemente o roteiro era antigo, foi pego e filmado mais recentemente. Os momentos que cenas lésbicas são levadas por uma música de Ana Carolina, em um alarme de estereotipo bem alto.

Há uma tentativa de lição de moral bem baixa, quase tão mal pensada quando o julgamento ultra moralista sobre vestuário feminino, com Julio, no corpo de Julia julgando que a maioria das roupas curtas das meninas as fazem parecer vulgares. Socorro, Virei Uma Garota poderia ter ousado ao parecer mais um filme que copia a estética de humor do cinema dos Estados Unidos, mas ao invés disso, de fazer o básico, ele se atém a apelar para piadas juvenis e arquetipos datados, como se ser nerd não fosse mais moda, além de conter um final bem covarde perto do que poderia ter sido de acordo com as últimas cenas de Thati Lopes.

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