Crítica | Socrates

Produzido por jovens de 16 a 20 anos, do Instituto Querô (uma ONG da Santos), Socrates tenciona ser mais que um simples longa, tentando ser uma iniciativa coletiva que visa incluir os flagelados e normalmente ignorados via arte. A historia é bem simples, mostra Christian Malheiros vivendo o personagem titulo tendo de lidar com a repentina morte de sua mãe, assumindo o trabalho e boa parte das responsabilidades da mesma, a fim de não passar necessidade.

O filme tem direção de Alex Moratto, e a tensão predomina do inicio até o final. Socrates é um menino que não sabe praticamente nada da vida, e que tenta a duras custas prover o próprio sustento e viver seus sonhos e pulsões mais básicas. As tentativas de trabalho que ele abraça esbarram não só em sua total falta de experiência com esses serviços, mas também a inabilidade que o mesmo tem em lidar com pessoas.

Ao exercer trabalho braçal, ele trava contato com Maicon (Tales Ordakji), um jovem com quem ele tem problemas num primeiro momento e que depois acaba por ter uma relação que varia entre a violência, afeto, aceitação e rejeição. As muitas hipóteses que o filme abre se confundem em suas razões, uma vez  que não se sabe exatamente porque os sentimentos tão conflitantes e viscerais ocorrem, se é pela perda prematura da base familiar do garoto, ou pela simples descoberta decorrente da puberdade que floresce dentro e fora de Socrates.

A grande questão que faz o filme se diferenciar do lugar comum em que o cinema brasileiro não mainstream normalmente prega é que todas as situações levantadas pelo filme fazem sentido, são pragmáticas e bastante tangíveis, não há distanciamento da realidade, por mais entrópicos que os eventos possam parecer. A briga do personagem titulo com seu pai, (Jayme Rodrigues), as intrigas que ele contrai por conta da sua orientação sexual, a busca pelo reencontro com as cinzas da sua mãe, tudo isso faz parte do universo de angustias que ele carrega, e tudo se torna ainda mais caro por conta da total entrega que Malheiros dispõe a obra. O final é emocionante, e mostra em um resumo emocional o desejo do personagem principal, não só de cumprir o desejo de sua mãe, bem como manifesta a confusão emocional e mental pelo qual ele passa, levantando até a possibilidade do desejo de não existir, evocado pela dificuldade do rapaz em nadar pela água revolta, que quase o faz se afogar. A não aceitação do mundo e a própria rejeição mental podem demarcar a ânsia pelo não existir, em uma perversão do pensamento freudiano complexa demais para mentalidades mais simplistas, só por isso, Socrates já vale muito a pena de ser apreciado.

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