Crítica | Sol Alegria

Sol Alegria é um filme que parte de um cenário político brasileiro fantasioso, mais ainda calcado um pouco na realidade de 2018 e 2019. O país é governado por uma junta militar e boa parte dos pastores evangélicos atribuem as desgraças que acontecem ao povo ao apocalipse que se avizinha. Em contraponto, uma família viaja para entregar armas a um grupo de militantes opositores formado por freiras, e que vivem da renda de uma plantação de cannabis. O objetivo do grupo é chegar à salvo na aldeia da Falange Sol Alegria.

Essa família tem métodos violentos e mata qualquer opositor seu, ou seja, assassinam os pastores, bispos e demais religiosos, a fim de tentar enfraquecer seus inimigos, além de estabelecer uma oposição mais enérgica e menos afeita as idéias de paz e amor, ainda que no comportamento de toda a família exista a mentalidade de amor livre.

Há no filme de Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira uma proximidade temática aos filmes recentes de Adirlei Queiroz, Era Uma Vez Brasília e Branco Sai, Preto Fica, embora claramente Sol Alegria seja muito mais apegado ao metafísico que esses dois, e tenha discussões voltadas para outro espectro de excluídos. Em comum entre esses universos, há a questão de um governo onde conservadores são soberanos e quem sofre são as minorias e periferias.

A ideia que o roteiro propõe é que os desvalidos e mazelados se unam e provoquem o mal com violência aos que se valem da autoridade e poder para espalhar seus próprios preconceitos. Para isso os estereótipos são normalmente invertidos, com algumas das freiras sendo interpretadas por homens, com relações sexuais homo-afetivas vividas de maneira incestuosas, e claro, com o armamento da população mais pobre.

O modo como retratam a irmandade católica pode ser encarada por parte do público mais conservador como profano, basicamente porque o longa retrata esse grupo formado por pessoas sem maiores prendimentos morais ou recalques sexuais. Cada um lida com sua sexualidade como quer e a nudez não só para eles como para quaisquer dos personagens centrais é um aspecto hiper natural, não erotizada, necessariamente. Entender que os católicos de Sol Alegria são apóstatas basicamente revela uma fobia não só ao sexo, como também um desejo egoísta de que qualquer gênero que perverta ou subverta os parâmetros de heteronormatividade, o que por si só é anti-ético e desonesto, não só pela crueldade da exclusão, mas também pela tentativa fracassada de tentar velar ou envernizar um preconceito.

Nota-se também uma forte influência de dois diretores estrangeiros, Bruce la Bruce, em especial o recente Misandricas, que também representa o grupo religioso católico de forma que foge dos clichês, e John Waters, sobretudo os produtos mais undergrounds como Problemas Femininos (Female Trouble) e Viver Desesperado (Desperate Living), que tinham uma visão de mundo muito particular, dadaísta e niilista, em comum com o filme dos Teixeira, há o fato de se basear em espectros políticos de seu tempo para evocar a vilania.

O final do filme, com o número artístico da família, tem seus altos e baixos, além de ser um pouco extenso, mas ainda assim reflete bem como a sociedade fora dos parâmetros estabelecidos. O fato de apelar para um discurso escatológico, de quase fim da humanidade obviamente não ocorre por conta daquela família que Sol Alegria acompanha, tampouco os residentes da chácara que leva o nome do filme, e sim dos agentes externos a tudo isso, e essa sensação de revolução libertária é muito bem pontuada por Tavinho e Mariah e faz temer a que ponto a realidade tangível poderá se aproximar do estado do filme.

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