Cinema

Crítica | Sono de Inverno

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Na segurança de um(a) cineasta que sabe o que precisa enquadrar, e o que não precisa estar num plano para contar a história, que nascem filmes como Sono de Inverno, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, edição 2014. Nuri Bilge Ceylan reproduz a mesma essência do Cinema que Glauber Rocha e Alberto Cavalcanti rodaram no saudoso nordeste do Brasil, e que Ingmar Bergman registrou em preto e branco na lenitiva ilha de Fårö, na Europa: um cinema de regiões, voltado a expor o que de melhor e pior as veredas de um lugar escondem, incluindo seus habitantes. Desses personagens, o mais indispensável é o ambiente onde a aventura se configura, o “ao redor” feito de panela de pressão ao povo que lá está inserido, vivendo ou morrendo.

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Seja no visceral Deus e o Diabo na Terra do Sol ou no soberbo O Canto do Mar, duas esferas que resumem historicamente o que é o conceito de qualidade de vida para grande parte dos brasileiros, ou ainda em Persona, suspense metido a drama, sente-se à flor da pele o apuro da poesia visual, da natureza que compõe o quadro, da linguagem que despreza as palavras para obter o que é necessário, e da maestria que faz com que um bando de imagens aleatórias se juntem, formem um sentido, e bem diante de nós, nos encantem – nos impressionem. Tudo isso é Cinema, foi Era Uma Vez em Anatólia, e é o que Ceylan faz como poucos hoje em dia.

Uma câmera não fala sozinha: é preciso dar-lhe voz e injetar-lhe narrativa. Uma montanha tampouco se expressa, senão no espaço entre suas mudanças geológicas quando deixa, ainda, como prova temporal, seus fósseis, pó e outros sinais de outros tempos. Congelar um pôr do sol reafirma a fé entre o natural e a tecnologia, sem jamais o primeiro depender da segunda para ser lembrado; o próprio natural crava sua relevância no amanhã com ou sem o advento da fotografia, mas Ceylan pouco se importa: faz da região seu livro de memórias, como Sebastião Salgado fez do mundo uma coleção de cliques em O Sal da Terra, em paralelo exato com a história de uma sociedade específica, como se as pessoas de Sono de Inverno vivessem num outro universo, em um clima frio e violento, onde o calor humano, como um sorriso, custa ser honesto nas relações de amigos e família. Tudo é tenso, denso, glacial, petrificado, definições típicas de um brasileiro acostumado ao caos emocional de um cenário tropical.

Traduzir os valores e o ambiente que os influencia é uma tarefa digna de aplausos, mas nada arrebata uma reflexão maior que atestar como esse ambiente – um mundo tão gelado, tão emocionalmente abissal – e quem vive lá, seres à beira da rivalidade ética, com suas emoções perdidas e caladas nessa profundidade moral que suas tradições sustentam desde sempre, são conectados e equilibrados para compor um longo mural de três horas, repleto de contradições propositais que gritam, no silêncio e na licença poética, para se fazer valer, num tempo e espaço melancólico muito bem construído e explorado, aberto a divagações brilhantes e contextuais sobre como a vida é afetada pelo local onde floresce, se constrói e decai.

Nos temas mais diversos, como poder, riqueza, casamento, sociologia e religião, o ser humano e o chão onde pisa viram um só a favor de nossa interpretação artística, adaptada em partes do tenso conto A Esposa, do escritor Tchecov. Tudo o que Ceylan não consegue falar da obra, usando aspectos teatrais mais compatíveis às cenas, ou nos diálogos íntimos e filosóficos da dialética, joga o dever para a imagem dos vales cobertos da neve que preenche a tela passiva, em panorâmicas de cair o queixo, onde a trilha-sonora é o vento, e o sol cortando a neblina o alento para almas condenadas à desolação ambiental e individual – o externo e o interno num furacão existencial, afinal, assistir a Sono de Inverno é mergulhar com paciência nesse vendaval.

Um filme de mensagens universais, seja nas relações do ser com o âmbito onde sobrevive, seja ao expor, leve e amplamente, nos confins da floresta emocional de cada um, boa parte do que lá se esconde. Ceylan já tinha feito isso em Anatólia, tinha ensaiado essa maturidade em Nuvens de Maio, mas devido a sua segurança no desenvolver de Inverno, parece ter descoberto o esquema para desbravar essa mata e fotografar tudo como se fosse Cinema, ou melhor, Cinemão de grande escala. Por isso mesmo, numa tática de mestre, o artista turco não procura escanear e aproveitar toda a enorme dimensão que seu filme poderia ter, economizando potencial na tela para ser imaginado depois pelo público – lição de casa. Mata que é desbravada perde seus mitos.

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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